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Frutas cítricas

Não tivera coragem de ocupar a outra parte do guarda-roupa, vazia há seis meses, como se a qualquer momento ele fosse adentrar pela porta da frente e voltar a preencher o seu lugar. Silenciosamente, continuava alerta para não deixar a chave atravessada na fechadura da porta ao chegar do trabalho. E ali, naquele apartamento vazio, tudo continuava do mesmo jeito. Principalmente ela, que em nada mudara. Usava aquele óleo de banho, com aroma de frutas cítricas e cheiro deles dois abraçados debaixo do cobertor. Hidratava-se, penteava-se e vestia uma daquelas camisolas de seda que ele tanto gostava. E então, punha-se em cima da cama para ler um livro ou assistir TV, com a melhor distração que podia forjar.

Ela não ousaria admitir, nem para o mais íntimo dos seus pensamentos, mas cada dia seu era uma nova espera. O coração acelerava a todo ruído familiar de carro que passasse à rua, a toda vez que o vento sacudia uma porta ou janela. E também a cada som qualquer que facilitasse a sua imaginação sussurrar que era a fechadura se abrindo, ou os passos vagarosos de quem não queria lhe interromper o sono com outra coisa senão um beijo de boa noite.

Ela lhe esperava desde o dia em que lhe mandou ir embora. Podia lembrar a última briga, por telefone, e de ouvir saltarem de sua boca palavras gritando em frenesia para que ele viesse buscar os seus pertences. Recordava a raiva nauseante com a qual jogara tudo dele dentro das malas – as roupas, os objetos, os presentes, a aliança com seu nome e a fotografia rasgada. A euforia foi tanta que, neste momento, não percebeu que deixara cair um pedaço de si junto com aquele emaranhado de coisas. Antes disso, lacrou as malas e as deixou ao lado da porta. Na manhã seguinte, levantou-se cedo e cuidou de passar o dia inteiro fora. Percebeu a besteira que fez quando descobriu que não suportaria ficar ali, para vê-lo partir da sua vida.

Mas muito ingênuo é quem pensa que só de amor se faz o coração. E que só de coração se faz uma vida a dois. E a confiança, a amizade, a cumplicidade, o respeito, a liberdade, a privacidade, o desejo, o esforço, os espaços, a compreensão, a toalha molhada em cima da cama e a tampa do vaso sempre em pé? Nas curvas da convivências, o amor foi se perdendo nos detalhes. Ela se perdeu em meio ao amor que sentia. E ele… Deixara-o se perder.

E nesse duelo entre o que pede a vida e o que pede coração, e tudo o que se perde no meio dos dois, ela passava dia após dia, banhando-se em frutas cítricas todas as noites antes de dormir. Talvez, na sua mais sã consciência, ela não estivesse realmente à espera. Mas, lá dentro, algo sempre pedia para deixar tudo como estava.

Era a vida que seguia em um coração que não sabia dar adeus.



Sâmia louise
Sangue de baiana, profissão de jornalista e coração de escritora. Movida por fones de ouvido e canecas de café. Sensível, intensa e minha. Mais fantasista que Alice e mais feminista que Dado Dolabella. Na enquete sobre a maior invenção da humanidade, votei em cerveja e Doritos.

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