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MEU CORPO EXISTE. RESISTE. PERSISTE.


Algumas mudanças acontecem de forma tão sutil que parecem folha dançando boba no vento. Só percebemos quando ela, por acaso, esbarra em nossa pele ou cai em nosso colo. Foi assim comigo também. Caí em mim depois da tempestade e nem percebi. Mas agradeço todas as vezes em que a vida me tirou pra dançar e quero dividir uma dessas valsas.

Não sei ao certo quando isso começou, mas criei o hábito de trocar de roupa na frente do espelho todos os dias. Por um lado a preguiça ajudou, já que ficar sentada na cama é bem melhor do que em pé na frente do guarda-roupas, mas aos poucos me vejo menos preguiçosa e muito mais curiosa. Olho para mim mesma e não mais me estranho, não mais com dureza e reprovação, mas com amor, carinho e com a cumplicidade que sei que mereço. Percebo cada dobra, cada pelo, cada marca, cada mudança de tom e as inúmeras pintas que me cobrem — sempre as vi como um charme ímpar. Meu charme. Meu eu.

Durante um bom tempo eu não fui capaz de me despir em frente ao meu reflexo. Sentia medo, repulsa, vergonha, asco e tristeza. Me deixei ser convencida pelo que as capas de revista diziam, pelos anúncios de biquíni exaltando "o corpo do verão" muitos números menor que o meu, na propaganda de gilete ensinando que mulheres e pelos não combinam e até no comercial de cerveja dizendo que um homem nunca olharia pra mim — descobri mais tarde que eu deixaria de me importar com eles em breve —, então enxergava minhas imperfeições como provas notáveis do meu fracasso físico. Tão tola... Mal sabia eu que sucesso nada tinha a ver com perfeição.
Foto: por Jessica Chamma e Felipe Mariano, fundadores do Projeto Cada Uma
Continuo sem saber quando esse ritual particular começou, mas aproveito meus minutos comigo mesma para me agradecer por ter começado. Hoje de manhã, enquanto o gosto de café ainda amargava a boca e o sol já esquentava a cama ainda bagunçada, me percebi sorrindo enquanto observava a gravidade puxando tudo para baixo. Pensei que não tenho mais os meus dezessete anos, mas nem queria. Aquela menina ingênua com "tudo no lugar" tinha muito mais bagunça pra arrumar do que tenho hoje, tinha muito mais dúvidas do que tenho hoje, apesar de estar dentro do que o mundo considerava “perfeito”.

Ao longo dos anos o meu corpo mudou tanto quanto eu e aprendi a admirá-lo muito antes de pensar em atacá-lo. Porque ele carrega todas as lições que aprendi, os tombos que levei, os arranhões que a vida me deu e todos os outros machucados invisíveis a olho nu se encontram ali — e pesam muito mais do que o olho enxerga. Então é isso que hoje eu vejo quando me olho todas as manhãs: vitória, poder, sabedoria, força, sobrevivência e, principalmente, resistência.

O meu corpo é militante e todos os dias vamos para as ruas desafiar uma sociedade que insiste em tentar torná-lo invisível.



GISELLE FERREIRA
Escreve para não enlouquecer e jura que tem funcionado. Na dúvida, canta também. É feminista, bissexual, afrontosa e defensora do respeito mútuo. Carrega Pernambuco no sangue enquanto seu coração bate em São Paulo. Troca qualquer balada por um cantinho com amigos e um violão.

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