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Por Onde Andei

Vem cá, senta aqui mais perto, quero te contar por onde andei enquanto você mergulhou naquela indecisão que te paralisou. Não pude ficar esperando você sair dos seus impasses e resolver suas dúvidas eternas, então caí na estrada e comecei a caminhar.

A estrada por onde andei era longa, sabe? E escura também. E muito fria. Não pense que ela era linear, longe disso. Era extremamente sinuosa. Pavimentada em curtos trechos, somente. Não havia acostamento ou baias para paradas de emergência. Placas de sinalização, tampouco.

Mas eu a atravessei. De ponta a ponta. Fiz o caminho de ida e o de volta. Cá estou outra vez. Havia sim outras alternativas mais simples, que certamente você teria escolhido percorrer. Eu não. Sabe que sempre gostei de desafios e acho mesmo que há verdade no mérito do “no pain, no gain”.

No trajeto, tive tempo suficiente para pensar. E repensar. Meditei. Coloquei tanto na balança. Refiz cenários aqui na minha cabeça e confesso que me surpreendi vendo que eu enxerguei muitas coisas sob óticas totalmente diferentes de antes. A gente pode se espantar com nossa capacidade de se iludir conforme nos convém, com nossa facilidade de fazer idealizações baseadas em carências e vazios, mas também somos capazes de surpreender a nós mesmos ao tomar novas decisões e fazer outras escolhas. Escolhas acertadas que me colocavam em foco, finalmente. Eu era, pela primeira vez em minha vida, minha prioridade número um.

Caminhei sem bengala, sem apoio. Me vi forte o suficiente para estar ali por mim e somente comigo mesma. Me reencontrei, me refiz, me fortaleci e, quando me senti pronta, dei meia volta e fiz o caminho inverso.

Aqui estou de volta. Mas não sou mais a mesma que foi. Essa aqui sou eu de verdade, essa é a versão mais real de mim, aquela mais próxima da essência verdadeira. E essa variante de mim não vê com bons olhos seus dilemas que não terminam, seu apreço entediante pela zona de conforto, seus pavores e medos paralisantes, seu prazer pelo tédio. Eu fui pelo caminho mais longo e difícil e, ao voltar, te encontro aqui, exatamente onde estava antes de eu partir, estagnado no mesmo lugar, com os mesmos olhos perdidos no horizonte, com a mesma preguiça de mobilidade.

Não posso te convidar para percorrer o caminho por onde andei, pois cada um tem que achar sua própria estrada, mas tem que estar disposto a fazer calos nos pés e na alma, não pode ter medo de ver os dedos e o coração sangrarem, não pode segurar as lágrimas que vão jorrar pelos olhos e pelas entranhas durante boa parte da trajetória, não pode temer os fantasmas que vão te encarar no escuro do percurso.

Lá, por onde andei, tem um portal bem na entrada que diz assim:
“Pessoas intensas são bem-vindas. Caminho não recomendado para quem prefere a inércia.”

Por isso, meu bem, melhor você buscar um caminho mais adequado para você. Se é que você quer um. É aqui, nesta encruzilhada, que nossos caminhos tomam rumos opostos e se despedem. Adeus.



ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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