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QUERIA GRITAR, MAS NÃO CONSIGO

escrito por Mafê Probst
Faz alguns dias e alguns rascunhos que estou tentando colocar meus sentimentos num texto qualquer. Pelo começo deste, percebe-se que não consegui. Eu virei um pedaço amontoado de várias coisas por dizer, alguns começos, alguns meios – e nenhum final. De um tempo para cá, tenho fugido de fins, pois não sei (nem sei se quero) pontuar nada de mim. Me transformei nas coisas que quero dizer, mas não digo. Não por não querer, mas por não saber como.

Sorte a minha que a vida é uma caixinha de surpresas, dessas bem bonitas, grandes e púrpuras. Meus sentimentos vieram gritados num e-mail. O grito estava no título em caixa alta: ‘TALVEZ NÃO SEJA NOSSA HORA DE SER’. Ali eu vi a lágrima chegar. E, contrastando com a imensidão da frase que intitula, o texto foi um suspiro bonito. Uma valsa de linhas que se encaixavam perfeitamente umas nas outras e que, uma a uma, me davam a mão e um afago.

Sempre tive urgência, percebo. Uma necessidade descontrolada de querer tudo para ontem; tudo no lugar; tudo devidamente catalogado e compreendido. Mas certas coisas só são e não há porquê — nem como — compreendê-las. Falhei miseravelmente quando tentei rotular tudo, quando tentei traçar planos, metas e desenhar futuros apressados; querendo pontuar corretamente, sem me ligar que ali já haviam as temidas reticências....

...

É estranho ver que tem tanto das coisas não-ditas ainda guardadas no estômago. Sentir as palavras aglomeradas na garganta, deixando os olhos queimarem de sal. Coleciono dois anos desde que li ‘TALVEZ NÃO SEJA NOSSA HORA DE SER’ e tudo nunca fez tanto sentido. Depois que o doce se perdeu, depois que o toque evaporou, depois que os caminhos se dividiram, sobraram pontos finais e algumas certezas.

Sempre degustei o ‘até breve’; o ‘até algum dia’. Riscava o calendário para esse dia breve chegar, e via as horas se alongarem sem pressa alguma – atrasando ainda mais os reencontros, os abraços, as novas despedidas. Agora fico aqui, nessa estação gelada, sem nada guardado salvo algumas perguntas que morrerão sem respostas... e a certeza de que talvez nunca tenha sido para ser.




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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