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Sentimentos de mentira

escrito por Mafê Probst
Caminhava como quem não tem o que perder, como quem não aposta. Vinha lindo, sorrindo no alto do seu um metro e oitenta e seis com os dentes brancos de dar inveja a lua. Sentou ao meu lado, respirando leve e não falando nada. Encarava-me com seu olhar de céu tranquilo e, tamanha intensidade, me roubava a fala, estremecia o corpo e palpitava meu coração inquieto. Fluxo do sangue acelerado, sentia o calor nas bochechas, corando gradativamente. Ele punha, então, as mãos nelas, me segurando com delicadeza pensada.

Depois de ter me perdido num “oi” – já distante – ele me roubava pra si sempre que me tocava desse jeito doce e me inundava com seus olhos de mar. Prendia a respiração cada vez que ele se aproximava mais e desfalecia sempre que me tocava os lábios. Hoje não. Ele ficou próximo, encostou sua boca em meu ouvido e narrou um poema quente, um poema sujo – ardeu meu ego.

Tenso, intenso, gordo de paixões, de delícias, de toque. “eu te quero”, “eu te sinto”, “sorvo teu gosto”, “impregna teu sabor”. Tímida e em chamas, sorria. Deixei que me lavasse a alma, me levasse às estrelas, que me fizesse esquecer do mundo...

(...)

Deitado ao meu lado, dormia. Levantei como uma pluma, pensando na sorte que tinha. Pisei num papel rasgado, amassado, escondido entre as pontas do lençol cheio de segredos. Recolhi. Ali estava, rabiscado, meu poema quente, meu poema sujo. Li recordando de sua voz e, triste, vi a data, tão antiga. Sujo não era o poema, pensei. Sujo era - e sempre fora - seus sentimentos por mim.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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