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Só pro meu prazer

escrito por Mafê Probst

Acordei sonhando sangue e o quarto escuro parecia vermelho aos meus olhos quentes. Te sonhei outra noite, com o fogo quente do teu corpo derretido no gelo do meu. Tem se repetido — dia sim, outro também — esses sonhos de quarenta graus, regado à imagem tua, desprovida de qualquer cobertura, de qualquer pedaço de pano. Apenas você. Você e você e você e eu. E isso me assola, bonito, depois do teu sumiço, depois daquela briga, regada à Whisky e cigarros soltos, panos no chão e verão intenso.

Admito, e sempre lhe admiti, que nada fluía para além do nosso toque e nos encaixávamos tão e perfeitamente bem que o resto era supérfluo perto de nós. Veja, falo de nós, mesmo sabendo que nunca nos fomos, que nunca nos pertencemos de fato e, entretanto, sempre coubemos bem como um. Um no outro. Mas tu se foi, batendo a porta ao sair, deixando o eco da batida fresco em minha memória e uma dor de cabeça insuportável por dias seguidos, além do maldito tom vermelho que te remete à lembrança, trazendo o quente para perto, escorrendo suor pela espinha.

Acendi mais um cigarro.

O tom vermelho míngua, mas tua lembrança não. Te faço meu sempre que meu corpo te chama e tu não estás por perto e, nessas horas, fujo de tudo que é doce — incluindo as palavras. Quero dizer palavrões em alto tom, dizer que te preciso aqui dentro, derretendo-me inteira, transformando-me e sorrindo ao ver. Clichê, clichê, clichê. Dor de cabeça e eu, emputecida. Não poderia ter te recriado da pior forma possível, tendo você da melhor delas para que evaporasses ao menor sinal de minha indiferença perante aos sentimentos. Não, cansei de ser doce. De falar doce, de andar suave, de pisar menina. Quero é encarar-me mulher, falar como tal e ser vista tanto quanto.

Rabisco em letras garrafais, cor de lápis já sem ponta. Eu quero você para mim. E quero de novo e repetidas vezes numa mesma noite. Quero-te quente para refrescar-me em uma noite carmim, um copo de Whisky sem gelo e cigarro de canela. E você, todo, inteiro. Dentro. Eu e você. Assim-assim. Como sempre deveríamos ser — um, nó, outro.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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