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Cafarnaum: a vila sem cuidado

escrito por Raíssa França

Compreendendo alimentação, moradia, higiene, limpeza doméstica e educação, o cuidado é fundamental para a sociedade. Sem ele as pessoas não têm condições de trabalhar, gerar renda ou existirem dignamente, já que ele vai ao encontro de necessidades humanas básicas.

Por mais que isto pareça óbvio, a importância do cuidado é subestimada e as pessoas só a notam em sua ausência. Isto é uma consequência de o cuidado não ser recompensado devidamente – pois é visto como algo que é feito por amor ou dever, sem moeda de troca; ou então ser mal remunerado – compondo os chamados subempregos.

Tradicionalmente atribuído às mulheres, o pouco caso que se faz do cuidado tem relação direta com a exploração da mão de obra feminina (muitas vezes de forma gratuita) e a própria desvalorização do papel atribuído à mulher na sociedade. Por isso, é necessário reconhecê-lo como um trabalho que tem valor real no corpo social.

Não há dúvidas de que o cuidado recai sobre os ombros de todas as mulheres – mas não da mesma forma. Enquanto mulheres de camadas privilegiadas conseguem terceirizar este trabalho a outras mulheres mais pobres, por exemplo, aquelas que estão no piso (como no caso da mãe de Zain, o protagonista do filme) simplesmente não têm condições materiais de cumpri-lo de forma adequada.

Em Cafarnaum, o que se vê é a ausência de cuidado: o filme mostra onde arrebenta a corda da desigualdade. Criado em condições miseráveis, Zain, uma criança de aproximadamente 12 anos, se ressente dos pais (especialmente da mãe) por terem lhe dado a vida sem condições de mantê-la de forma digna. Em vez de sentir que os pais cuidam de si, ele se vê explorado junto de seus irmãos; há uma reprodução das relações de poder no âmbito familiar. O estopim é quando uma das suas irmãs, de 11 anos, é preparada para ser vendida para casar com um homem muito mais velho – o que faz com que Zain decida fugir dali.

Nesta fuga, Zain conhece outras pessoas a quem o cuidado faz falta. O idoso que tem que trabalhar para sobreviver porque não tem família, mesmo sequer estando plenamente lúcido. O bebê que é filho de uma imigrante negra ilegal – que reluta para sobreviver, se manter no país e trabalhar.

Longe de atribuir a situação de Zain à mera negligência, os seus pais não são monstros: são produtos da mesma engrenagem, de uma situação de miséria. O diferencial do filme fica no protagonista infantil, que se recusa a jogar o jogo do qual é a vítima, ousando mostrar solidariedade e responsabilidade pela vida do outro – indo na contramão de uma sociedade que trata o outro como um objeto de exploração. No lugar da lógica individualista do “cada um por si”, a chave é virada ao pensar no cuidado como algo que deve ser cumprido e usufruído por todos.

Ao invés de virar o rosto para a miséria ou tratá-la de forma estereotipada, este filme mostra as personagens que ela atinge de forma mais urgente. Em vez de fazê-la motivo de riso, ele nos convence que é preciso se entristecer por ela, e muito.

Jogar conforme as regras de Zain é teoricamente simples. Comecemos assim: primeiro nos imaginamos no lugar do outro, por exemplo com a ajuda de um filme como este: quem entre nós precisa de cuidado? Depois, reconhecemos a importância do cuidado ao nosso redor: quem cuida de mim? Finalmente, contribuímos fazendo o possível por aqueles com quem convivemos: de quem eu posso cuidar?

Um gesto por vez, ampliamos a nossa perspectiva, enxergamos as pessoas que precisam de nós e valorizamos aquelas que nos permitem viver de forma digna.



raíssa frança
Com um pé no Direito, um pé na Letras e a cabeça vagando no espaço sideral. Condenada por problematizar em excesso, o meu objetivo é dar vazão a reflexões pessoais, compartilhar leituras e ter contrapontos. 

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