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Gatilho

escrito por Naiara Alves


Gatilho,
palavra forte, seca, dura.
Ela permeia toda a minha existência,
aqui e agora.

Colocou a taça de licor sob a mesa e se sentou, tentando absorver o silêncio e captar o mundo. Precisava transcrever aquela incógnita chamada vida de modo convincente, algo que já tentava há algumas horas. O primeiro texto não havia dado muito certo por consequência da transposição madura: é preciso respeitar a urgência das palavras.

Sentou-se no melhor lugar da casa, vista para a cidade. Todos comentavam quando ela postava fotos ali. Parecia o lugar ideal, então o adotara como seu. Rogou auxílio a uma pequena dose de álcool – uma escolha que, quando esporádica, soa inocente. As palavras são urgentes e ecoam a todo momento.

Sentia-se insossa, indisposta. A surra emocional no dia anterior teve nela consequências de uma densidade quase inestimável. Tudo muito recente, de fato. Todo aquele processo de epifania, somado ao de desconstrução só podia resultar em quebra. É possível reconstruir-se? Havia se mostrado demasiado disposta até então, sendo até elogiada pelas constantes tentativas de organização da sua tralha emocional.

Parecia o cenário ideal, não fosse o excesso de apatia batendo no peito. Gatilho. Essa palavra ecoava sem cessar a sua mente desde aquela manhã. Demorava digerir algumas vivências humanas. Aquela, em especial, havia sido estarrecedora.

Ela errou a mão, pensava. Ou ela tem razão?, - questionava. Pessoas tropeçam, afinal. Quanto mais exigiremos de seres humanos comuns um heroísmo romantizado, exacerbado e constante? Havia se proposto a humanizar suas ações e sua compreensão do outro. A vida em si exigia aquilo, e não era de hoje.

Sentada, folha em branco, um teclado aberto e mudo. Várias letras a seu dispor, inenarráveis possibilidades. Mas como transbordar esse mar de oportunidades, se o gatilho secou a fonte? Gatilho. Ela errou mesmo a mão, houve uma falha. A dor existencial dilatava dentro de si, aguda, gritando solução. E palavras, palavras não são vomitáveis a mim. Aqui, elas exigem tempo e espaço. Era o que também eu precisava.

As tentativas de dissolver o susto em água branda, contrastando o ponto específico da quebra com a experiência linear traçada, falharam. Estava ciente de que a zona de conforto não caberia naquele processo, tampouco era essa a questão. O impacto não cessava diante daquele acesso de raiva instantâneo e gratuito, proferido subitamente - sem spoiler ou aviso prévio.

Aviso prévio – uma palavra que cabe aqui e agora.

Algo precisava ser feito. Uma reação à monotonia inexistente para a qual apontavam a minha vida. Riso quase calado, trabalho silencioso de uma mente barulhenta e incessante. Posso eu ter falhado na comunicação, quem sabe. Algo precisa ser feito.

Abandono o sofá em súbito – ele é sempre associado à preguiça e descanso, afinal. Caminho até o quarto e faço escolhas pouco criteriosas: bagagem pronta. Alguns cliques, e (quase) tudo resolvido. Uma carta pouco explicativa, dinheiro reserva e saio rápido, sem me despedir – seria perigoso olhar para trás.

"Algo precisava ser feito, algo precisava ser feito, algo precisava ser feito", repito em mantra até a rodoviária, afastando qualquer chance de recuo que ouse rondar o trajeto daquela súbita tomada de decisão. No guichê, rasas palavras: bilhete em mãos. Desço a rampa de encontro ao ônibus, que tem a cor verde – um sinal?

O fio gelado invade e atravessa minha espinha dorsal. Eis que subo.




naiara alves
Uma administradora de empresas que largou tudo para viver seu grande sonho de trabalhar com as palavras. Estudante de Letras, e uma das mediadoras do Leia Mulheres de sua cidade, decidiu embarcar na onda da blogosfera, se tornando uma booktuber e criando um instagram literário, o Blog Epifania. Apaixonada por Clarice Lispector, café e tranquilidade, se fosse para escolher uma única coisa em sua vida, escolheria a literatura - sem titubear.

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