icones sociais

Infância roubada

escrito por Fernanda Amorim
Ele era apenas mais um menino desses tantos que se encontra em qualquer periferia desse país. Não tinha muito, na verdade não tinha quase nada. Talvez só lhe tenha restado a tão sagaz infância, mas infelizmente a pureza dela estava sendo-lhe tirado aos poucos.

Ninguém dava nada por ele e agradeciam aos céus quando, por ventura, ele faltava às aulas, raros momentos esses, pois ficava nítido que, pra ele, a escola era um refúgio e um lugar onde podia receber atenção, mesmo não sendo pelas atitudes mais positivas possíveis.

É que na sua tão pouca idade foram-lhe tirados os bens mais preciosos. A mãe faleceu cedo, o pai foi logo depois em troca de tiros com a polícia. Vivia com a avó, essa que recentemente teve um AVC e ficou impossibilitada de cuidar desse menino e oferecer um pouco de amor se quer. Passou então a peregrinar nas casas de parentes. Uma semana ficava com um tio, depois ia para a casa da tia-avó. E assim os meses passavam com ele indo e vindo, como quem pula de galho em galho.

Ele não era dos melhores na escola, bem que diziam. Mas há como ser? Veja só, aos 12 anos ele não tinha exemplo nenhum de amor, ele nem recebia amor direito. Não sabia o que era se sentir cuidado, importante, parte do mundo. Ele só vivia a intensidade da pré-adolescência como quem não sabe muito que fazer e o que precisa ser feito, só deixava que o fluxo o levasse e o modulasse.

E infelizmente ele foi se modulando na ausência de afeto e no excesso de cobranças. Nunca havia feito uma tarefa da escola, mas ele não tinha nem casa direito, quem dirá material escolar. Nunca passou um dia sem levar bronca no colégio, mas como aquietar a mente de uma criança que não possui certezas nenhuma na vida? Ninguém nunca o incentivou a estudar. Ninguém nunca o disse que seria possível. Ninguém nunca mostrou que era importante. Ninguém nunca o fez se sentir importante.

Presentes de natal? Provavelmente raros. Festas de aniversários? Quem sabe um bolo simples pra não passar em branco. Ele ainda não sabia muito da vida, mas essa já havia sido tão cruel, obrigando-o a aceitar circunstâncias que nem adultos conseguem lidar direito. Mas ele tinha que sobreviver e tentar dar seu melhor, mesmo não sabendo que havia algo “de melhor” em si.

E mesmo sem tantas coisas ele ainda carregava um brilho no olhar. Mesmo com tantas ausências ele ainda era capaz de oferecer um sorriso tímido quando alguém, por ventura, dizia algumas palavras de incentivo e com afeto.

E, apesar de todos os apesares, ele ainda era capaz de retribuir o pouco amor que lhe era dado.




fernanda amorim
Taurina com ascendente em touro. Intensa, sonhadora e teimosa. Formada em letras, professora de língua portuguesa, apaixonada pela vida e amante das palavras.

Comentários

Instagram