icones sociais

escrito por Giselle Ferreira
Incrível como a gente se acostuma, né? Começa com um "Ei" no meio de uma quarta-feira qualquer. Continua numa foto do sol matinal na porta de casa, uma taça do vinho predileto — porque vinho sempre é poético e cabe em qualquer canto, qualquer conto. Segue num “Já ouviu essa música? Viciei” e de repente já tem uma playlist inteira na conversa do whatsapp. E de play em play, o afeto vai invadindo os pixels, as notificações, as ligações e os dias já não são mais tão monótonos. De repente, até o tédio dividido fica interessante.

— Dia tá estranho.
— Energia tá pesada, né?
— É.

Afinidade não manda aviso prévio. Vai crescendo a cada “Tá tudo bem mesmo?”, no meio do “Você também? Que bizarro!” ou até mesmo no “Cara, sou tão diferente de você nisso. Como a gente se entende tanto?”. Porque semelhanças são bem vindas, sempre, mas são as diferenças que ditam a força de uma relação. É fácil demais amar o outro se ele se comporta como esperamos sempre, faz nossas vontades, tem os mesmos comportamentos e não existe espaço para atritos — ou não, porque lidar com uma versão nossa é difícil pra burro também, mas deixemos essa parte pra outro texto.

— Promete que não me mata? Acho que fiz merda.
— Ai, lá vem. Já até sei.

O ponto é que, seja entre amigos ou casais, as relações ganham forças no meio dos furacões, nas diferenças diárias. Na liberdade de dizer “Não curti essa música”, “Não gostei do que você disse”, “Não ficou legal isso”, com a mesma leveza do primeiro oi. Nem sempre com a mesma calma, porque até a melhor das relações tem seus dias de costas viradas e mensagens silenciadas.

— A gente já tá bem?
— Não, mas vamos ficar.
— Promete?
— Prometo.

É no meio do dia mais estressante da vida, quando você está a ponto de se jogar na frente do primeiro carro que virar a esquina, e pensa justamente naquela (ou naquelas, se der sorte) pessoa para quem você não precisa se explicar. Basta ligar e dizer “Preciso falar sobre qualquer coisa, me ajuda?”, ou não dizer nada. O silêncio pode distanciar, tanto quanto pode aproximar. E aí quilômetros se tornam partículas de poeira soltas no vento, quando você sente que recebeu exatamente o abraço que precisava naquela hora, pra não enlouquecer. Mesmo que os braços estejam em outro DDD.

— Coloca mais cerveja na geladeira que eu tô chegando. Levo o limão.
— Vem. Vou tomar um banho rápido e te espero.
Mafê & Giselle | SP

Afinidade. Amor. Carinho. Cuidado. Colo. Cumplicidade. Dedicação. Torcida. Respeito. Silêncio. Suporte. Zelo. Cabe um dicionário inteiro nesse texto, assim como cabem vidas inteiras num amor que nasce sei lá de onde e não tem medo de passar por pedras, buracos, distâncias, tristezas, despedidas e desavenças. Então se você tem um alguém como esse, se você se viu em algum desses diálogos, dessas palavras bobas e corriqueiras, reconheça esse privilégio. Abrace essa pessoa, de perto ou de longe. Em silêncio ou saltitando. Mas agradeça a vida por isso. São essas pessoas que fazem a existência valer a pena.

— Já contei que te amo hoje?




GISELLE FERREIRA
Escreve para não enlouquecer e jura que tem funcionado. Na dúvida, canta também. É feminista, bissexual, afrontosa e defensora do respeito mútuo. Carrega Pernambuco no sangue enquanto seu coração bate em São Paulo. Troca qualquer balada por um cantinho com amigos e um violão.

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