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O dia em que me tiraram para dançar

escrito por Ana Paula Del Padre
Eu estava naquele baile sem pretensão alguma. Na verdade, eu nem queria ter ido. Não estava no clima para festas ou grandes comemorações. As circunstâncias acabaram me levando para lá meio à força, por isso permaneci a maior parte do tempo numa cadeira, sem prestar muita atenção ao que estava acontecendo à minha volta.

Foi quando ela se aproximou. Surgiu, repentinamente, na minha frente e me tirou para dançar. Eu, timidamente, disse que não me animava muito a dançar, e, ela, insistente, acabou me convencendo, dizendo que prometia que seria divertido.

Acabei cedendo, abracei-a de leve e deixei que me conduzisse. Os primeiros passos foram meio desajeitados, pisamos nos pés um do outro, dançávamos em ritmos diferentes, fora de sintonia, descompassados.

Depois de uma música e outra, começamos a nos entender melhor, o sincronismo veio chegando, o ritmo embalou, ficamos mais encaixados, mais afinados.

Após certo tempo, algumas tantas músicas depois, parei de pensar no “dois pra lá, dois pra cá”, a melodia me invadiu, os passos foram saindo e fluindo naturalmente, sem que eu precisasse me esforçar ou sequer pensar sobre eles.

Foi somente então que comecei a curtir a magia de dançar. Deixei meus pensamentos voarem para longe, senti cada movimento, me deixei levar, fui no impulso da música, ora mais rápida, ora mais lenta, fato é que estávamos alinhados, nos entendendo perfeitamente: eu, minha companheira de dança e a música. Éramos um só. Havia harmonia, existia consonância. Bailávamos com leveza, éramos espontâneos.

Já não sei quanto tempo havia se passado e quantas músicas já tínhamos dançado juntos, quando minha companhia me soltou. Retirou vagarosamente seus braços do meu entorno, foi indo para mais longe, afastando seu corpo do meu, colocando fim, gradualmente, àquele momento tão mágico.

Começou a virar as costas para ir embora, enquanto eu me entristecia por ter a nítida impressão de que ela me deixaria ali naquele baile totalmente só, no meio de pessoas desconhecidas, ao léu, como se o que tivéssemos acabado de viver durante o tempo em que aquelas músicas tocaram, não tivesse significado nada para ela. Quanta insensibilidade de sua parte, eu pensara, enquanto sentia meu coração dilacerando.

Fiz um movimento involuntário para agarrá-la de volta. Num ímpeto, consegui segurar sua mão, ela se virou de volta para mim e me disse que precisava realmente ir e que ela havia estado lá somente para me tirar de onde eu estava e me ensinar a dançar. Agora que eu havia aprendido a bailar lindamente, eu já poderia seguir o baile por minha conta.

Era genuíno: vi verdade em seus olhos antes dela virar-se outra vez para ir embora, dessa vez em definitivo.

E, foi assim, o dia em que a vida, literalmente, me retirou da zona de conforto, me tirou para dançar e me ensinou, da forma mais bela, que seja o que for, o baile sempre precisará seguir. Sempre!




ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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