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Sobre chover

escrito por Fernanda Amorim
Às vezes me encontro assim, quietinha dentro de mim. Silencio o mundo lá fora e me concentro nos burburinhos dos meus pensamentos. É que tem dias que mesmo fazendo um sol de rachar, aqui dentro chove e eu prefiro dar atenção ao que berra na tentativa de fazer o barulho ser menos ensurdecedor.

Minha alma é assim...pede refugio e colo quentinho de vez em quando. Se agita até que eu pare por umas horas e escute o que ela tem a me dizer. Mas digo, sinceramente, que na maioria das vezes ela não diz nada, só quer a minha presença e atenção, parece mãe da gente, que volta e meia senta do nosso lado, pega o nosso braço, sem dizer uma palavra se quer, mas fica ali só pra sentir o nosso calor.

Houve tempos em que eu ignorava meus próprios sinais e recusava-me a aquietar a rotina pra ser minha outra vez. Achava que eu não podia parar, não podia respirar com calma, não podia me escutar. Colocava o fone de ouvido e aumentava o volume na tentativa falha de dispersar os pensamentos insistentes... mas eles sempre me venciam e uma gripe ou uma dor vinham derrubando o meu corpo, obrigando-me a repousar.

Meu psicológico me comanda e, se eu não o ouço, automaticamente meu corpo adoece, obrigando-me a ouvir.

Houve outros tempos em que eu ouvia, mas me culpava. Culpava-me por estar mal, culpava-me por querer chorar, culpava-me por não ter motivos aparentes pra chover tanto e, consequentemente, a culpa me colocava num ciclo sem fim, onde passei dias sem conseguir sair. E aí eu aprendi que tudo bem estar mal sem porque, tudo bem querer ficar deitada no escuro por um tempo e chorar até dormir. Tudo bem porque a tristeza é só mais um sentimento e, assim como todos os outros, ela também passa.

A dor faz parte da vida e saber lidar com ela é essencial pro nosso desenvolvimento. Então deixa doer, deixa chorar, deixa chover. A dor só vai embora depois que a gente senti-la por inteira. Então que doa e doa bastante. Que doa porque eu posso ser triste durante um dia, mas a ânsia de ser feliz durante todos os outros é muito maior.




fernanda amorim
Taurina com ascendente em touro. Intensa, sonhadora e teimosa. Formada em letras, professora de língua portuguesa, apaixonada pela vida e amante das palavras.

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