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Sou eu, lembra?

escrito por Ana Paula Del Padre
Naquele final de tarde, eu te vi. Sim, seria capaz de reconhecer você a quilômetros de distância, no escuro e de olhos fechados.

Era você. Te enxerguei de longe e esperei que você viesse até mim. Não por vontade própria, pois sabia que você estava me evitando, fiquei sabendo sobre os malabarismos que você havia feito em sua rotina e logística a fim de não me encontrar nunca mais. Mas, como a gente não pode fugir a vida inteira, naquele dia acho que seus planos de mudanças de horários e caminhos tiveram algum revés, e, lá estávamos. Quase frente a frente. Obrigatoriamente, pelo lugar onde você estava, teria que passar por mim para poder ir embora. Mas, não aconteceu. Quer dizer, você passou sim, mas me ignorou completamente. Fingiu que eu não estava lá. Que eu não existia, ou que existia, mas era uma completa desconhecida — o que soou ainda pior.

Sou eu, lembra? Eu costumava ser aquela que deixava sua vida mais divertida. Nossos dias juntos eram tão coloridos e animados. Nossa! Como a gente sorria juntos, como nós gargalhávamos falando bobagens.

Sou eu, lembra? A gente costumava viajar juntos, conhecendo lugares novos, explorando outros horizontes. Inúmeras vezes caímos na estrada, com destino a lugares incríveis, outras vezes fomos sem rumo algum.

Sou eu, lembra? A gente tinha o hábito de assistir filmes juntos. Adorávamos gastar horas inteiras mergulhando no mundo dos personagens das mais variadas películas. Eu devorando pipoca salgada, bem salgada, e você aquela pipoca insuportavelmente doce, de caramelo.

Ei, sou eu? Não se lembra? Eu segurei a sua mão, a sua barra, nos seus momentos mais incertos. Eu senti dores que eram suas, te abracei para te tirar do precipício e deixar seu mundo um pouquinho mais leve, não se recorda? Sou eu, lembra? Te contei a história inteira da minha vida, choramos juntos, fizemos planos pro futuro.

Éramos tão cúmplices, não é possível que você tenha se esquecido... Sou eu, lembra? A que escrevia para você. Eu rabiscava as poesias que você musicava depois. Eu era aquela que dançava contigo em todas as festas...

Chorei tanto naquele momento, me senti invisível, tive vontade de correr atrás de você e gritar: "ei, sou eu, não se lembra?" Mas te confesso que aquilo só durou um instante.

Certa vez, uma pessoa muito especial me ensinou que um homem feliz é simplesmente alguém com memória, com bagagem, com história vivida para contar, seja ela qual for. Felicidade é ter o que contar depois. E foi assim que me senti: feliz, por ter vivido uma história e por ter todas as memórias aqui comigo. E eu poderia falar delas em detalhes para quem quer que fosse. Eu saberia dizer a música que tocou no nosso último encontro, a cor da blusa que você usava na primeira vez que nos vimos, sua comida preferida, cada uma de suas manias, o gosto que tinha o doce que sua avó fez naquele encontro de família, o que seus olhos diziam quando você estava no mais absoluto silêncio e por aí vai. O fato de termos certeza absoluta que nossa história tinha realmente chegado ao fim, não significava que você precisava fingir que ela nunca aconteceu. Que tipo de gente vive apagando todo e qualquer rastro que tenha ficado atrás de si? Quem pode ser feliz deletando tudo o que foi um dia?

Daquele dia em diante, parei de chorar por mim e tive pena de você: pena por ter tido amnésia, por ter ignorado parte da história da tua vida. Parte importante, aliás.

Ao fugir de mim naquela tarde, você não estava só me ignorando, mais uma vez me machucando, me apunhalando: você estava apagando a si mesmo, retirando as provas e atestados de quem já foi um dia, deletando qualquer vestígio. Naquela tarde fatídica, eu me senti sim invisível, mas era você que estava reduzindo sua passagem por essa vida a nada, simplesmente nada...




ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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