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Um mini conto sobre saudade

escrito por Fernanda Amorim

Eu não o perdi, não só. Perdi os dias cinzentos num barranco onde plantavam aipim. Perdi os morangos verdinhos e os ovos recém retirados do galinheiro. Perdi as tangerinas, maracujás, jabuticabas. Perdi o jacarezinho que tanto rasgava nossas roupas. Perdi os castelos de areia, o mel, perdi as abelhas. E tanta falta que me faz o ingá e aquele lago onde nunca consegui, de fato, pescar.

Perdi as figuras paralisadas na beira do gramado observando-nos correr. Perdi os chocolates de páscoa, os agrados nos natais. Perdi as filas pra pegar sorvete naqueles dias de pais. Perdi os almoços de domingo que nem agradavam tanto assim. Perdi as piadas. As tantas piadas. Perdi a casinha tão aconchegante em cima daquele morro. Perdi o cheiro da infância. Perdi também a cidade pacata nos dias de frio. O quarto pequeno e as sopas as seis da tarde.

Perdi de os ver no sofá as sete da noite, de banho tomado, esperando a missa começar na TV. Perdi os cafés com bolo de laranja, pão de fubá, queijo e linguiça. Perdi aquele carinho gostoso que nos encoraja a viver despreocupadamente os dez anos de idade. Entre tantas as coisas perdidas, restou-me o amor. O amor que traz a certeza da fraternidade, proteção e chamego que sempre existiram. E dentre tanto amor que restou, ficou transparecida a dor de perceber que partir, infelizmente, também nos faz crescer.




fernanda amorim
Taurina com ascendente em touro. Intensa, sonhadora e teimosa. Formada em letras, professora de língua portuguesa, apaixonada pela vida e amante das palavras.

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