icones sociais

Universo paralelo

escrito por Ana Paula Del Padre
Eles se viram algumas poucas vezes antes daquele dia. Não que tenham passado despercebidos um ao outro das vezes anteriores, mas, por algum motivo, digamos que deixaram passar e seguiram suas vidas.

Entretanto, por alguma razão que desconhecemos, naquele dia fatídico, não foi mais possível deixar pra lá.

Olharam-se em uníssono, de forma tão profunda, enxergaram-se mutuamente, lá no íntimo de cada um. Ele a viu como ela é, como nunca antes alguém a percebeu, leu nos olhos dela a ânsia de vida que pulsava por lá, enquanto ela o viu em toda sua essência, com tudo o que ele já havia vivenciado, com toda a bagagem que trazia, com todas as cicatrizes e problemáticas que ele batalhava para esconder até de si mesmo. Aquele olhar trocado despiu a alma dos dois.

E, naquele momento, quando aqueles olhos se cruzaram, nada precisou ser dito, nenhuma palavra sequer, mas ambas as vidas foram ali conectadas e entrelaçadas. Estavam num universo paralelo, só deles.

Foram para muito longe dali, onde ninguém jamais esteve antes, um lugar que só pertencia aos dois, sem ruídos, interferências, máscaras, ou o que quer que fosse: eram só eles na versão mais real de cada um.

De lá em diante, sempre que se olham, viajam em segredo para aquele universo paralelo, onde falam em silêncio uma linguagem secreta, só deles, conversam, trocam confidências, se entendem, se conectam, se abraçam, se reconectam, sem que nenhuma palavra seja dita, sem que eles sequer se toquem. A viagem acontece só através do inexplicável poder daquele olhar sustentado e recíproco entre eles.

Não deve ser mentira que os olhos são o espelho da alma. Eles devem ser mesmo. De fato, os olhos falam ao mundo tudo o que está guardado em nós, tudo o que muitas vezes palavras e gestos não são capazes de fazer.

Mas, em alguns casos, como no deles, os olhos não se contentam em falar: eles berram!




ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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