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EU FUJO DE PAIXÕES NÃO ENSAIADAS

escrito por Mafê Probst
Lembro o dia que me apaixonei por você.

Era uma dessas noites bonitas de inverno, cheias de promessas – mas sem promessa alguma, sabe como? Tinha traçado um roteiro e uns abraços, tinha planejado toda a história para aquela noite, tinha rascunhado chegadas, falas e partidas.

Tinha tudo para ser impecável.

Deliciosamente no script, sem que eu precisasse improvisar. Precisava só dosar a intensidade dos abraços apertados e mesclar as palavras com goles de cerveja; reclamando um pouco do frio a cada meia hora ou menos. Seria leve e fácil, seria gostoso e só. O frio ficaria só nas mãos geladas e na cerveja que congelava a garganta.

Mas aí veio você e o frio se alojou em meu estômago.

Foi um mísero de segundo, um deslize à toa, uma pausa errada, no momento errado, que me fez fugir do roteiro que eu tinha, meticulosamente, traçado. Eu vi o mundo parar naquele instante; eu ouvi as vozes cessarem e não existir nada além de nós dois. Meio segundo – ou menos. Foi suficiente.

E eu perdi o prumo.

Dali para frente me tornei um emaranhado de ações estabanadas e palavras atropeladas, sem sentido algum. Forcei a voltar para a valsa ensaiada que tinha planejado e me vi perdida dentro dos meus próprios planos. Será que alguém mais tinha visto o tanto que eu tinha mudado? Será que alguém tinha percebido que eu estava destoando naquele terceiro ato? Será que alguém via o tanto que eu improvisava?

Fugi antes de acabar a cena.

Deixei a peça pela metade – ela não fazia mais sentido. Escondi-me no bastidor de mim mesma e fiquei repassando pedaço-por-pedaço, para entender em que momento eu havia falhado e me esbarrado em você, fazendo me perder. Qual e quando. Só. Desisti de querer saber do “porquê”.

Seguindo sem respostas, ainda lembro do dia que me apaixonei por você.




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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