Livros demais

escrito por Mafê Probst
O problema, garoto, é que já li livros demais. Mergulhei em milhares de linhas recheadas de contos de fadas, de amores impossíveis, de aventuras infinitas, de sonhos acalcáveis, de suspiros, de lágrimas torrenciais. Eu li casos improváveis, vi quem amava sem ser correspondido e comi as páginas torcendo para que o fim do personagem fosse aquele que todo leitor quer, mas que o autor judia.

Vi gente caminhando de mãos dadas, mesmo o destino querendo impedir. Li vampiros românticos, amor vencendo a diferença de idades, amor juvenil, infantil e inocente. Chorei debaixo das cobertas, com o celular ligado pra ler as frases que borravam a medida que os olhos enchiam e sorri depois, por ser tão boba. E depois, mais boba ainda, voltava a ler o mesmo velho livro e me ver chorando nas mesmas conhecidas partes e, irrisoriamente, desejando um final diferente. Mais feliz. Sei lá, garoto. Eu tenho em mim imagens de lugares que nunca pisei e saudade de pessoas que nunca vi, mas que conheci o mais íntimo, os segredos, os medos, os desejos, tudo ali, impressos num pedaço de papel que – caramba! – como tenho ciúmes.

De todas as folhas, de todos os capítulos, de todo ponto final. Final, garoto. Infelizmente, todo livro tem um final. Todo personagem termina no final, mesmo ficando pra sempre aqui do lado de dentro, seja na memória, seja no peito. Sabia? Tem personagem que amo, como a Rudy (o menino de cabelo cor de limão), o Ed Kennedy, o Mensageiro azarado de carisma imenso e três bruxinhos que cresceram junto comigo. Então, garoto, não venha me dizer que contos de fadas não existem, porque eu já li livros demais.

E quando se lê livros demais a realidade difunde na ficção e os sonhos se misturam com o que vi ao vivo e o que vi lendo e tudo vira saudade: do que li, do que fui quando li e do que quero ser quando ler de novo.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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