o dia que resolvi partir

escrito por Mafê Probst

Fazia muito tempo que eu estava longe de mim. Eu me escondia na rotina e, fatalmente, era sugada por ela. Dia após dia desenhando histórias que não eram minhas. Dia após dia adiando a vida. Só existindo, sem viver. Esperando... Esperando o quê? Não tinham respostas para as minhas perguntas. Sequer haviam perguntas, porque não me preocupava muito em pensar nelas. Foi então, determinado dia, que acordei que percebi que o tempo havia voado e não dava mais para ficar sentada esperando. A vida escapava dos meus dedos e eu precisava reagir.

Não foi fácil.

O ser humano tem a mania de se amarrar no comodismo e se camuflar na rotina. Tendenciamos a caminhar pela trilha que exige menos de nós. É como estar num barco e deixar que a maré te leve, porque remar é trabalhoso demais. Mas você enxerga o problema? Se permitirmos que nos levem, não sabemos onde iremos dar. Eu estava a deriva e, quanto mais o mar me afastava, mais ansiosa e preocupada eu ficava.

Num rompante, resolvi pegar os remos e comecei a remar.

Ok, ok, ok. O 'rompante' não foi tão imediato. Levei meses de choro, crise e taquicardia até ter coragem de ditar meu próprio caminho. A ansiedade foi companheira por semanas e aprendi a lidar e controlar, mas alguns dias ela vinha tão forte que possuía total domínio sobre mim. Eu me sentia miúda. E doía, intensamente.

Não é fácil perder o controle da própria vida e demorou um tempo para conseguir me reinventar e me reconhecer outra vez. Tive várias pessoas que me ajudaram nessa fase transitória e me incentivaram a  pegar os remos e sair do lugar, ditar as regras, seguir meu caminho. Eu me joguei sem medo. Senti os braços queimarem, o cansaço bater, mas tinha algo tão lindo em mim que valeu a pena (e ainda vale) todo o esforço:

Um sorriso. Imenso.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.



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