icones sociais

Os Três Guris

escrito por Ana Paula Del Padre
Sábado de outono.

 Acordo mais tarde, finalmente um final de semana leve, sem compromissos, sem horários a cumprir, sem grandes obrigações. Dia perfeito lá fora: céu claro, sol quentinho, espantando um tantinho o outono insistente. Cenário completo para usufruir dos benefícios do ócio.

Decido ir a um parque recém-inaugurado na cidade, fazer literalmente nada. Só queria escolher um banco junto ao sol morninho e ver as horas passarem, sem pressa alguma. Sem me ocupar com absolutamente nada.

Assim faço. Sentada por lá, respirando devagar, me aquecendo no sol, olhando os pássaros, o lago, os belos jardins tão bem cuidados, não posso deixar de notar três garotinhos brincando alegremente num pátio de areia, não longe do banco onde eu sentava.

Os guris deviam ter entre nove e dez anos, no máximo. Brincavam de tantas coisas diferentes ao mesmo tempo: em menos de uma hora, os vi correr para o pega-pega, depois engataram um esconde-esconde acelerado, jogaram bola, andaram de bicicleta, brincaram com uma massinha de modelar melequenta, de caça ao tesouro, apostaram corrida e por aí foi.

Os três me pareceram tão diferentes um do outro, não só fisicamente, mas na personalidade também, e, mesmo assim, se davam tão bem. O loirinho cantava uma música estranha, aos gritos, para quem quisesse ouvir, não se envergonhava ou se intimidava em saber que estava todo mundo reparando nele. O moreninho não estava nem aí que não tinha tanta desenvoltura para correr porque pesava um pouco mais que os outros dois, corria assim mesmo, em seu próprio ritmo, não deixava de participar das brincadeiras por causa disso. Estava curtindo tanto quanto os outros dois.

O terceiro, de olhinhos puxados e cabelos negros como carvão, não sabia andar de bicicleta e percebi os outros dois tentando ensiná-lo: um dava as dicas teóricas, dizendo ser aquela atividade algo muito fácil e natural, o outro mostrava na prática e até segurava a bicicleta quando o amiguinho oriental deixava o medo de lado e se atrevia a ensaiar um pouco.

Sentaram para fazer piquenique juntos, dividiram os lanches, as frutas, o suco. Estavam em perfeita comunhão. Com as barriguinhas cheias, deitaram-se na areia do pátio e puseram-se a olhar o céu. Cada um dizia a figura que via as nuvens acima deles formarem: viram elefantes, discos-voadores, joaninhas, trevos de quatro folhas, bruxa, morcego, cachos de marimbondo e tantas coisas mais. Haja criatividade!

Assim, aqueles três guris encantadores passaram mais um sábado feliz na existência deles.

Mal podem imaginar o quanto me ensinaram naquele meu dia de ócio: me fizeram enxergar como é importante encontrar tempo para fazer o que nos faz felizes, que devemos ter tempo para os momentos alegres, que são nosso combustível e nos mantém de pé; me mostraram que dias felizes não deviam ser raridade, pelo contrário, eles estão aí, por toda a parte, na simplicidade de tudo; me ensinaram que se tivermos vontade de cantar na rua, que mal há nisso?

Não deveríamos nunca calar nossa própria voz para agradar ninguém ou engolir certas coisas por receio do que os outros vão pensar. Me disseram, nas entrelinhas, que nada nessa vida é proibido, desde que não estejamos prejudicando ninguém. Escancararam de todas as formas que devemos respeitar todas as diferenças; demonstraram a beleza que há em compartilhar e em ter uma amizade realmente sincera, pautada unicamente na alegria de estar na companhia do outro, desprovida de qualquer outro tipo de interesse que não seja rir e se divertir até o corpo não aguentar mais.

Me fizeram relembrar como devemos deixar nossa imaginação correr leve e solta. E, antes de deixarem o parque e voltarem para casa, me falaram, na língua deles, que mesmo quando você acha que está sem fazer nada, a vida está, na verdade, te dando aulas, verdadeiras lições sobre a arte de viver.



ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

Comentários

Instagram