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A Mulher no Espelho

escrito por Ana Paula Del Padre
Acho que ela sempre esteve lá. Eu é que demorei a reparar. A primeira vez que a notei, eu era bem jovem, cheia de sonhos, pulsava vida por todos os meus poros. Meus cabelos eram dourados, meu sorriso branco como a neve, mas o mais incrível de tudo era o brilho que meus olhos emanavam, diretamente refletidos naquele espelho. Era muita luz. Foi num espelho bem grande, quase de corpo inteiro, que fazia parte do conjunto de penteadeira de mogno do quarto da vovó. Ela estava lá, refletida no espelho. A tal mulher.

Acostumei-me com o reflexo dela sempre que eu entrava naquele cômodo. Com o passar dos anos, acho que esqueci-me dela um pouco. Entrava e saía e nem sequer reparava se a moça do espelho estivera lá. Acho isso coincidiu com o tempo em que liguei minha vida no piloto automático. Fazia mil coisas ao mesmo tempo, trabalhava demais, estudava demais, não tinha tempo para nada, deixei meus amigos de lado, esqueci de viver, deixei tanto escorrer por minhas mãos, porque eu tinha tanto a fazer, porque eu resolvei correr insanamente atrás do prejuízo.

Depois deste tempo, lembrei de novo da moça do espelho. Voltei lá e assustei-me um pouco com o que vi: os cabelos dourados deram lugar aos primeiros fios brancos que começaram a brotar; aquela pele impecável, já tinha tantos sinais, marcas e cicatrizes. O tal sorriso esplêndido estava meio apático. Resultado da vida zumbi que havia levado nos últimos tempos.

Demorei a habituar-me com a nova mulher no espelho. Foi um trabalho árduo. Mas a aceitei. Fiquei de bem com ela. Fiz as pazes comigo. Aceitei que os cabelos brancos vão vir mesmo, e cada vez mais depressa. Que as linhas de expressão, rugas, marcas de todos os tipos, vão fincar cada vez mais fundo em minha face. E estou de bem com isso também. Quero olhar a mulher refletida no espelho e orgulhar-me dela sempre, de cada uma das tais imperfeições, pois entenderei que elas são meu troféu, minhas medalhas, pelas batalhas que travei. Elas são a prova da minha força, da minha superação. E cada uma delas contará uma parte e um pedaço da história de minha vida.

Estou em paz com tudo.

Abraço qualquer imagem que a mulher no espelho me mostrar agora. QUALQUER UMA. Só não aceito uma coisa: que ela apareça para mim sem aquele olhar reluzente e cintilante. Isso não. Porque enquanto os olhos brilharem, haverá potencial, chances, esperança e oportunidades. Só preciso de brilho nos olhos, para entender que ainda há vida pulsando em mim.



ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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