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Antes de Nascer o Mundo

escrito por Ana Paula Del Padre
Esse livro foi me recomendado por minha terapeuta (grata por isso, Fernanda).

Trata-se de uma obra do escritor moçambicano Mia Couto. Foi mantida a versão da língua portuguesa de Moçambique, uma sacada da editora que achei muito bacana, pois falamos a mesma língua, afinal, portanto, tudo é 100% compreensível, e ainda ganhamos o encanto de ver pequenas nuances de grafias vez ou outra um pouco distintas, com algumas letras a mais ou a menos, alguns acentos gráficos em locais que comumente não colocaríamos, engrandecendo ainda mais a leitura.

Seria difícil listar aqui o assunto central do livro, pois ele fala de tantas coisas... mas, caso eu tivesse que dar destaque a um tema, diria agora que fala da necessidade inerente e vã que o homem tem de esquecer aquilo que lhe causa dor e sofrimento, como se fosse essa uma luta que se pode vencer. Todas as loucuras que somos capazes de fazer para fingir que certas dores nunca passaram nem perto de nós.

Silvestre Vitalício se exila num lugar isolado da savana africana com seus dois filhos e mais um “amigo” da família, após uma sucessão de acontecimentos muito difíceis que fazem parte da vida, e decide fundar um novo mundo, uma terra só deles, isolando-os de tudo, poupando todos de algum contato com qualquer vestígio que ainda possa ter restado do mundo externo. Mas ele se esqueceu que quando as feridas são dentro, não importa onde você vá, as sombras certamente irão junto.

Quem narra a história é Mwanito, o afinador de silêncios, filho caçula de Silvestre. Inteligentemente dividido em três partes, sendo a primeira dedicada a apresentar a nós, leitores, a humanidade: no caso, formada por não mais que meia dúzia de seres, cada qual com um capítulo customizado, com a finalidade de nos familiarizar sobre quem são os personagens que formam essa belíssima história. A descrição de cada personagem é tão subjetiva, mas ao mesmo tempo tão profunda e cheia de detalhes, que, em certos momentos, cheguei a pensar que cada personagem ali fosse, de fato, uma analogia a algo maior...

A segunda parte do livro destina-se a falar sobre a chegada inesperada e repentina de uma forasteira estrangeira que ousou adentrar o novo mundo. Assim como na vida real, em que alguns encontros e acontecimentos são como divisores de água, esse embate dela com os habitantes daquela terra não ficará imune a nenhum deles.

É impressionante ver como mundos tão distintos se convergem em pontos comuns à raça humana. Somos tão diferentes, mas tão iguais nos aspectos fundamentais. É bonito ir construindo em nossa mente, durante a leitura, as nossas próprias versões sobre como aquelas histórias de alguma forma irão se cruzar, quando, à primeira vista, parecem ser pessoas tão diferentes umas das outras. 

Mas a gente descobre, enfim, que são pessoas. E ponto.

O entrelace e a conexão das histórias se dá nas sutilezas, e, por isso, os efeitos são tão grandiosos. Destaque absoluto para a maestria poética na escrita das cartas da forasteira para seu marido Marcelo, encontradas pelo pequeno Mwanito enquanto fuçava os pertences dela. Poucas vezes na minha vida li algo assim beirando a perfeição. A obra poderia ter terminado ali mesmo, no meio, na segunda parte, com os textos daquelas cartas, que já seria plena e completa, tamanha a beleza daquelas palavras inebriantes.

Mas, enfim, vem a terceira e última parte, dedicada às revelações e regressos, onde os desfechos se apresentam, algumas explicações vem à tona, outras não, algumas vezes em formas de novos inícios, afinal, a vida é mesmo assim, com ciclos se encerrando para dar espaço a novos que precisam adentrar.

O livro termina me deixando atônita e cheia de lágrimas nos olhos, porque descubro que aquela é uma história sobre a vida. É sobre gente de verdade. É sobre ser humano e desumanidade. Qualquer semelhança com nossa condição humana não terá sido mera coincidência.

Em certos momentos, poderia ser a minha, a sua, a nossa narrativa. É sobre verdades e mentiras. Sobre dores e decepções e como decidimos as encarar. Sobre separações e rupturas. Mas também sobre novos encontros. É sobre guerra e paz. Isolamento, negação e alienação. Sobre culpa, remorso, luto, redenção. E sobre como optamos viver após esses percalços. Sobre lições e aprendizados. Sobre escolhas e respectivas consequências. É sobre destino e livre-arbítrio. Sobre luz e sombras. Sobre perdas e ganhos. Causa e efeito.

É sobre o tanto de barulho que o silêncio traz. É sobre toda a verdade embutida nas entrelinhas das mentiras. É sobre quanta complexidade está intrínseca naquilo que é simples. É sobre a esperança que brota em meio aos desesperos. É sobre real e imaginário. É sobre nobreza e mediocridade. É sobre passado, presente e futuro. É sobre razão e emoção. É sobre morte em vida. É sobre sede de viver. É sobre vontade de morrer. É sobre querer apagar tudo o que se viveu e sobre ter saudade do que ainda não chegou. É sobre tudo, mas poderia ter sido sobre nada.

Após terminar de chorar e pensar em tudo o que eu acabara de ler, fiquei me questionando as razões pela escolha do título e convenço, a mim mesma, baseada em teoria própria, que Mia Couto deve ter dado o nome "Antes de Nascer o Mundo" a esse livro encantador porque, de fato, temos, todos os dias, a chance de fazer o mundo nascer de novo, o nosso mundo, mesmo que na noite anterior, tudo dentro de nós tenha literalmente morrido...

Boa leitura!



ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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