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CLICHÊS DE AGOSTO

escrito por Mafê Probst
É falar de agosto que começo a mastigar clichês. Sim, você leu certo. Não, eu não escrevi errado. Acho que é em agosto que caem no meu colo, com uma ferocidade desnecessária, todas as verdades ignoradas, sabe? Parece que em agosto cai a ficha de que o ano está realmente passando, que fiquei olhando para diversos amanhãs que nunca chegaram e me amarrei em desculpas esfarrapadas para justificar minha estagnação.

Enquanto eu vomito essas primeiras linhas, fica um gosto amargo na ponta da língua (ou na ponta dos dedos?), pois é difícil engolir algumas dessas palavras, algumas dessas verdades, alguns desses clichês. Eu releio o passado (uma vantagem de escrever tanto & tudo) e percebo que sou um disco arranhado, repetindo as mesmas rasuras e andando em círculos.

Não é possível que os anos avancem tanto e as frases sigam as mesmas. O choque fica fixado no meu olho esbulhado, encarando uma ‘noite feliz’ vermelha, uma balança inimiga, umas fotos esquisitas com padrões impossíveis. Ok, não vou aqui só vitimizar e me vestir de hipocrisias, pois esse ano foi um ano bom, cheio de novas descobertas – sobretudo sobre mim mesma.

Descobri, tem pouco tempo, o prazer de ser eu mesma, sem vestir rótulos & armaduras & expectativas — que são dos outros. Quem me vê falando assim, tão sem rodeios e tão cheia de pompa, sequer imagina o tanto que é difícil driblar essa confortável zona que te chama diariamente: é fácil demais ser o que os outros querem, ser o que os outros esperam. É só ensaiar e atuar – não tem segredo.

Mas pesa demais essas máscaras e figurinos, então não recomendo. Vai se despindo, até pra poder se encontrar. Saber quem é você debaixo de toda essa fantasia, ver como você está sem toda essa maquiagem. Que linhas, rugas e cicatrizes você carrega – e faça as pazes.

Eu precisei me perdoar por ter dançado uma coreografia que não era minha. Entendi que fiz o melhor que pude no tempo que tive; e que culpas e autopiedade não seria nada produtivo. Então deixei fluir. Deixei ir o que precisava, sendo assim, entendo que não devo me vestir de tanta hipocrisia.

Mas, de todo modo, agosto ainda me cai como um murro no estômago. Eu vejo o tanto que poderia ter feito e não fiz, o tanto que sonhei e não realizei, o tanto de tudo que imaginei, debaixo de um céu estrelado estrangeiro, numa fria noite entre dezembro e janeiro, no momento exato onde um ano se despede e outro ano renasce, chorando uma estrela cadente num céu muito azul.


E chegou agosto. E eu fico mastigando os clichês e fazendo contas (quanto tempo passou? Quanto tempo tenho até que o ano renasça outra vez?); e estruturando novas ações para concluir velhos planos; e lembrando de Caio Fernando e desejando o clichê mais clichê de todos os clichês do mundo:

Que seja doce. Repito. Que seja docinho.




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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