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CURRICULUM VITAE

escrito por Naiara Alves
O dia havia amanhecido manso, apesar da noite mal dormida. Aproveitou o raro silêncio, permitindo a si mesma horas a mais na cama - tentativa rasa de reparar a intranquilidade mental da madrugada. Levantou-se do lençol macio e despiu seu corpo da cama quente e quase acolhedora, seguindo passo para mais um dia de rotina. Ao olhar sua imagem no espelho, lembrou-se de que não havia nada programado pela frente: ela abandonara o emprego no dia anterior.

Um súbito mal estar tomou conta de sua existência. E agora?, pensou. O branco vazio da tela cotidiana a ser preenchida naquele dia encarou sua face pálida no espelho, aguardando em imediato uma resposta cabível em meio ao leque de possibilidades. Era aquilo a aclamada liberdade? -, questionou-se, tentando administrar o estranhamento que corria quente em suas veias, pronto para relativizar a existência de tudo.

Ao abrir a geladeira, percebeu que repetira mecanicamente o café da manhã dos últimos três anos. Era algo impensado, precisava ser prática. Ovos – alimento que nunca fizera parte de seu cardápio favorito. Ovos. Jogo rápido, frigideira e sal. Ovos. E o café preto não adoçado de sempre – aquele, ao menos, fazia algum sentido. Apostou no incomum: panquecas. A receita fugiu ao esperado, mas ainda assim sua boca experimentava um novo sabor, o frescor da novidade. Sentiu-se abrigada.

Olhou a sua volta, dominada pelo ar de espanto que a mudez de sua mobília lhe causava - uma mudez que gritava. Havia vida ali? Lembrou nostalgicamente dos infindáveis critérios por ela utilizados na escolha de cada peça que agora compunha o espaço de seu pequeno confortável apartamento, e de como nada ali havia sido utilizado como planejado. A sonhada composição reduziu-se em morto preenchimento de espaço.

O relógio marcava nove horas. Nove horas da manhã. Desde que se mudara, nunca havia estado em casa no período da manhã em dias úteis: sua vida não havia sido programada para isso. Nove horas de manhã, repetia a si mesma, enquanto gargalhava esticada no sofá da sala. Nove horas da manhã de um dia comum causavam nela ondas de impacto – explosões de culpa e liberdade.

Sob a mesa, a pilha de currículos prontos para serem distribuídos cidade afora. No que dela dependesse, planejaria até mesmo o acaso e, por isso, ao chegar da empresa na tarde anterior, imprimira uma quantidade razoável deles, na autopromessa de procurar por uma nova vaga de trabalho. Sim, um novo trabalho a massacrar mais dez horas de seu dia e o que restava de sua saúde emocional. Era preciso.


Não era. Não havia nada que a obrigasse a pegar o metrô abarrotado naquele dia. Por que não?, indagou ao espelho, estranhando a ousadia do próprio tom. No instante seguinte, embebeu-se de calmaria e imensidão. Era como se o mundo só acontecesse fora do espaço físico de sua casa, como se todas as vozes ali dentro silenciassem. Sentiu que todo o tempo do mundo estava inteiramente à sua disposição: tinha um dia inteiro pela frente.

Desceu rumo à padaria que ficava há três quadras do prédio onde morava, deixando para trás o celular – a ideia de ser encontrada causava arrepio. Planejou comprar alguns pães para que pudesse descansar o restante das horas do dia sem precisar deixar outra vez o apartamento. Em súbito, desplanejou, comprando chocolate e cigarros: queria prazer.

Não tratava-se, necessariamente, de desejo sexual – ainda que sua vida fosse também pacata nesse sentido. A sede batia pelo experimento em si e as sensações cruas que dele proviriam. Queria sentir. Precisava sentir.

Notando que pensar talvez atrapalhasse seus planos, atravessou pela avenida rumo ao calçadão da orla da praia. Havia sentado poucas vezes naqueles bancos inócuos e vazios, que passavam sua existência à espera de poetas – ou de pernas cansadas.

Sentou-se. Era inevitável: aquele banco gritava sua existência impercebível. Só ela notava? Quanto incômodo causava aquele simples banco. Inenarrável, sufocante, inaudível. Inescrupuloso. Qual o sentido daquele instante? O que fazia com que ele, imóvel, vivesse à espreita de outras vidas? Quanto desgaste poderia lhe causar o conforto alheio? Por que ele não gritava? Um banco mudo. Uma vida toda muda. Existência inexistente. Quase redundância.

Um vento gélido beijou seu rosto, causando nela arrepio imediato. Acendeu o cigarro e sorveu, quase submergindo: a fumaça aspirada fluía em sua mente, beijando cada pensamento confuso. No caos urbano silenciado fechou os olhos, buscando inalar a vida que habitualmente tentava sufocar. Queria sentir. Precisava.


Os passos andantes a seco em seu redor não despertaram sua atenção – permanecia imersa em sua própria inexistência. Alternando tragar vento e cigarro, sentiu os nós de seu corpo se desfazendo um a um, corda que arrebenta tímida – o tipo de leveza que, há muito, não reconhecia. Era como se Deus tivesse também tirado um dia para soprar-lhe vida. O mundo, naquele instante, era dela – e de mais ninguém.

Utilizou a linha do mar que pairava sob seus olhos para também traçar a de sua vida. Notou em súbito instante que sua existência era, como um todo, incompatível com os sonhos que alimentou um dia – tampouco sentia-se frustrada por isso. Não sentia. Assustou-se, no entanto, ao rememorar seu passado utópico, quando escolhia preencher as horas com a tinta da ilusão.

Perceber isso causou nela impacto de terremoto: estremeceu. Talvez uma dose de medo ou receio. Acordara de um sono profundo? Talvez. Talvez.

Retornou ao apartamento, cambaleando sensações inéditas. Reconhecer a ausência de si mesma tomou, em absoluto, os seus sentidos. Abriu a porta e entrou, tentando retomar o ar que lhe faltava. Sentou ofegante à mesa. Olhou a pilha de currículos ali colocada horas antes, tomando um para si. Era aquilo? Era àquele mísero papel o grande condensador de toda sua existência?

Tomada pelo cansaço, pousou seu corpo no sofá. Confortável, pensou. Há quanto tempo não deleitava o abrigo de sua própria casa? Olhava ao redor, tentando reconhecer-se ali.

Lembrou que havia na dispensa uma garrafa de rum...




naiara alves
Uma administradora de empresas que largou tudo para viver seu grande sonho de trabalhar com as palavras. Estudante de Letras, e uma das mediadoras do Leia Mulheres de sua cidade, decidiu embarcar na onda da blogosfera, se tornando uma booktuber e criando um instagram literário, o Blog Epifania. Apaixonada por Clarice Lispector, café e tranquilidade, se fosse para escolher uma única coisa em sua vida, escolheria a literatura - sem titubear.

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