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Guerra de Travesseiros

escrito por Ana Paula Del Padre
Ontem à noite, em pleno jantar, meu filho surpreendeu-me com mais uma de suas perguntas inesperadas, daquelas que as crianças são especialistas em fazer, que nos deixam de olhos arregalados e não nos permitem um preparo prévio para responder, porque são espontâneas, inusitadas e totalmente fora de contexto:

— Mamãe, algum dia eu terei que lutar numa guerra?

De imediato, pensei em responder que guerras não existem na vida real. Que são coisas que só acontecem no cinema, pura invenção fictícia.

Por alguns instantes, antes de devolver qualquer coisa ao meu legado, que fitava-me ansioso por uma resposta, um filme passou brevemente por minha cabeça e peguei-me imaginando quantas guerras aquele serzinho à minha frente ainda travaria em sua trajetória: amizades desfeitas, amores impossíveis, competições acirradas, separações indesejadas, a finitude de certas coisas, doídas decepções, dores na alma, batalhas perdidas, enfim, essas coisas todas que também fazem parte de viver e que não deixam ninguém imune.

Quase disse que as piores guerras são aquelas que precisamos lutar com nós mesmos, quase que diariamente, para manter o equilíbrio entre razão e emoção, escolhas e consequências, ter e ser...

Por pouco não deixo escapar que, muitas vezes, parecerá não haver trincheiras suficientes para abrigar ou esconder certas dores e tristezas que, inevitavelmente, cruzarão o caminho, vez ou outra.

Mas, por fim, encaro aqueles olhos de jabuticaba, cheios de vida e desejosos de uma resposta imediata, e respondo, simplesmente, que sim, e que, inclusive, ele acabara de ser convocado para a primeira delas: a guerra de travesseiros mais divertida do mundo!

Gastamos, assim, horas inteiras guerreando com todas as almofadas e travesseiros que fomos capazes de encontrar pela casa. Tudo tem seu tempo certo. Tempo de plantar, tempo de colher. Tempo de falar, tempo de calar. Tempo de guerra, tempo de paz.

 E aquele era, definitivamente, um momento de paz...




ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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