icones sociais

O PRIMEIRO FIO DE CABELO BRANCO A GENTE NUNCA ESQUECE

escrito por Giselle Ferreira
São Paulo, segunda-feira, oito e vinte e cinco, treze graus.

O espelho me encara e eu devolvo admirações e indagações corriqueiras. Quando foi que meu cabelo cresceu tanto? Parece que foi ontem que decidi mudar radicalmente o visual. E se eu mudasse de novo? Era uma tentativa de busca de mim mesma, disseram. Então se a busca se repete internamente, deveria repetir também alguma mudança radical do lado de fora?... O tempo passa, mecha pra lá, pente pra cá. Prende. Penteia. Alisa. Penteia. Deixa cair. E quase lá pelo fim, ele se apresenta.

Radiante em prata fina, impecável, discreto, valioso. O primeiro fio de cabelo branco se mistura entre as mechas pretas e pontas de um loiro distante, resquício da última loucura (será?). Sorrio. Admiro. Quero fotografar, contar pra todo mundo, mandar publicar na capa do jornal mais vendido: EXTRA! EXTRA! MENINA ENCONTRA SEU PRIMEIRO FIO BRANCO! Mas não acho que chamaria muitos clientes. Esse espetáculo é só meu, assim como a surpresa misturada com alegria. As lembranças de uma vida misturam-se como os fios, com a lembrança de uma mãe diferentona que dizia “Filha, não vejo a hora de ter meus cabelos brancos, sabia? Sempre achei um charme ímpar. Será que demoram aparecer?”, enquanto penteava seus longos cabelos lisos e castanhos ao meu lado, no espelho do banheiro.

Pulo de volta ao presente e reconheço que o próprio tempo se encarrega de nos mostrar que nenhuma mudança imposta se faz necessária quando naturalmente há tanta transição por aqui. É inverno lá fora, mas começa agora, nesta manhã aleatória, em frente ao espelho que tanto me viu chover, minha troca particular de folhas, para quem sabe na primavera que já espreita eu possa florescer. Nunca fui de seguir ordens muito bem, mesmo.

Como um reflexo urgente, separo, encaro e puxo. Uma dor miúda coça a pele, porque mudar realmente dói. Mas se eu gostei tanto, porque arrancá-lo assim de mim? É que ouvi dizer que de onde sai um nascem dois (ou eram três?) e a minha sede de novas fases não me deixa querer outra coisa, senão uma chuva prateada de fios entrelaçados nos cabelos de menina que diariamente vem aprendendo a ser a mulher que sempre sonhou, independente das estações.




GISELLE FERREIRA
Escreve para não enlouquecer e jura que tem funcionado. Na dúvida, canta também. É feminista, bissexual, afrontosa e defensora do respeito mútuo. Carrega Pernambuco no sangue enquanto seu coração bate em São Paulo. Troca qualquer balada por um cantinho com amigos e um violão.

Comentários

Instagram