quatro minutos e meio

escrito por Mafê Probst

Estava chovendo do lado de fora e do lado de dentro do quarto. Esteban tocava estridente no notebook, fazendo chiar o som, que implorava que eu diminuísse o volume. Mas, como comecei contando, estava chovendo e eu precisava de algo que gritasse mais alto que o barulho das gotas que batiam — em mim e na janela. Cruzei os dedos torcendo para que, pelo menos, o som não estourasse, haja visto o caos que estava por todos os lados, quando a última bomba caiu no meu colo.

Não liga para essas linhas que rascunho sem sentido. Acho que é só o inferno astral anunciando que acabou de chegar. Veio junto da chuva. Eu fiquei admirando a chuva e fazendo coro, porque sim. Não me dei conta até sentir salgar a boca. Aí eu sorri, por ser boba. E na ponta do meu sorriso, vi o sol desabrochar nas nuvens e um pedacinho azul de céu.

Continuava chovendo, lá e cá. Mas tinha um solzinho, aqui e acolá. Respirei fundo, vinte vezes. Fechei os olhos, me encarei por dentro. O som continuava estridente, berrando verdades e outras coisas bonitas, denunciando meu novo vício musical, num repeat alucinado... O fato é que tinha um sol no canto dos meus lábios, e um sorriso bonito no céu. E, apesar de tudo, sigo tranquila, na certeza que tempestade nenhuma dura para sempre.

Essa, em particular, durou quatro minutos e pouco mais de meio.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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