tatuei saudade na pele

escrito por Mafê Probst

desconheço autoria

Para ouvir na voz linda do Vitor Kley ♥

Eu tatuei a saudade na pele justamente para não esquecer.

Havia uma fina cicatriz no local e estava sumindo com o tempo. Senti-me na obrigação de fazer alguma coisa. Há tanta memória guardada aqui... Você não entenderia. Quanto te falo, sem rodeios, sobre uma saudade infantil minha, ela parece inocente e pequena, mas o turbilhão que pulsa por trás das entrelinhas é gigantesco demais. Não podia deixar toda uma história sumir repentinamente.

Fazia muito tempo que eu estava longe de mim.

Eu me escondia na rotina e, fatalmente, era sugada por ela. Dia após dia desenhando histórias que não são minhas. Dia após dia adiando a vida. Só existindo, sem viver. Esperando. Esperando o quê? Não tinham respostas para as minhas perguntas. Sequer haviam perguntas, porque não me preocupava em pensar nelas. Foi então que, determinado dia, acordei e percebi que o tempo havia voado e não dava mais para ficar sentada esperando. A cicatriz estava sumindo e eu sou apegada demais às coisas e pessoas para deixá-las sumir eternamente.

Doeu, confesso.

Cada agulhada doía em proporções gigantescas. E eu sorria para maquiar a dor que sentia. A saudade é meio masoquista, não é? Mesmo com todas as frases feitas, mesmo com todos os conselhos doados aos quatro cantos do mundo, vamos lá e cutucamos a ferida. Por que dói, mas é bom. Nos mostra o quanto estamos vivos e o quão bom foi tudo que ficou para trás. Saudade é deixar algo para trás e eu, nas andanças da vida, carrego muita saudade antiga.

Saudade de mim, principalmente.




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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