icones sociais

VELHOS HÁBITOS NUNCA SE PERDEM

escrito por Mafê Probst
— Sabia que te encontraria aqui.

Ele estava parado na porta, vestindo uma bermuda solta, camiseta regata e chinelos. Ela lhe olha com curiosidade.

— Como sabia que eu estava aqui?
— Não estava conseguindo dormir, levantei para ir ao banheiro e encontrei teu cheiro parado no meio do corredor.

Aproximou-se, sentando na cadeira ao lado. A cidade parecia feita de vaga-lumes alaranjados naquela noite sem lua.

— E como sabia que era eu?
— Teu cheiro ainda é inconfundível. Sinto sempre que te vejo passar – e nas vezes que nem é você quem passa, quando tem silêncio fazendo ausência por todo lugar.
— Surpreendente. — diz. As bochechas coradas. Não o encara; permanece perdida naquela noite alaranjada e imensa, ouvindo a insônia pulsar nas ruas daquela cidade muito grande.
— Sei que sou.

Olha de relance. Seu olhinhos piscam, infantis. Um sorriso miúdo dança no canto da boca.

— E convencido sempre... Sabe, é bonito. Mas um tanto triste.
— Triste por quê? – questiona ele com a voz mansa.

Uma mão pousa em outra, que estremece. Os olhos dela piscam demoradamente, engolindo uma lágrima teimosa.

— Sinto você nos perfumes alheios, também. Mas olhando pra você agora, nessa noite cheia de falhas memórias, percebo que esqueci o gosto do beijo teu.
— Isso não é algo difícil de resolver.
— Mas não seria justo. Nem certo. Sei lá, iriamos bordar uma nova lembrança. Muita coisa muda quando o tempo passa, não é?
— Será que tudo?
— Será que não?
Deixa ser como será, quando a gente se encontrar. No pé, o céu de um parque a nos testemunhar... Deixa ser como será.

A voz abraça uma melodia narrada. Ela abaixa os olhos. Um vento frio sopra e as peles se arrepiam.

— Velhos hábitos nunca se perdem, não é?
— Velhas saudades também não.

Silêncio. Silenciam. A mão segue repousada numa mão estremecida. A energia irradia o toque, eles se permitem o arrepio.

Tanta história tatuada nessa selva de pedras, não é?
— Tanta memória tatuada no cantinho bonito do coração.
— Tem tantos detalhes.
— E sobra tanta falta.

Ele lhe olha. Ela desvia o olhar.

— Sustenta. De novo.
Ela lhe olha de volta e segura. Uma piscina rasa teima transbordar. A mão solta da mão estremecida e seca um rosto.
Velhos hábitos nunca se perdem...

A mão estremecida segura a mão que seca o choro. Uma boca encosta no dorso daquela mão trêmula. A moça sorri e fecha os olhos.

— Deixa bordar novas memórias?
— Sinto que não devemos.
— Aqui, de novo. Fazer aquela valsa que não carece de palavras. Somos bons na falta delas também.

Uma sobrancelha erguida. O coração uma oitava acima do tom.

— Nossa testemunha será a mesma velha selva de concreto. Aqui seremos e deixaremos de ser. Estamos sós quase nesse topo de céu. Tem tanta história para ser traçada...
O perigo é eu me esconder em você...

Emudecem.

O beijo é cadenciado, úmido e salgado. Chove naquele pequeno espaço. O céu estrelado abre espaço para novas estrelas, quando eles se elevam e voltam. Minutos, horas. O tempo parecia não importar... Amanhece. Bocas e mãos se soltam, olhando o sol irradiar por entre os prédios.

E quem vai saber?

Ele aperta a ponta do nariz, a beija na testa e sai. Ela segue encarando a insônia mais bonita que já viu.





Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

Comentários

Instagram