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A Garota da Gangorra

Todos os dias ela passava pelo parque, na ida para o trabalho e na volta, entre os passeios com os amigos, no meio das consultas ou quando sobrava um tempinho livre entre a rotina e a vida de gente grande.

Desde pequena a gangorra foi seu amor à primeira vista. Nunca gostou de brincar sozinha, então já chegava sorridente na esperança de fazer um novo amigo, alguém pra dividir a brincadeira. Quase sempre aparecia algum desconhecido e se encantava pelo sorriso dela, ou apenas queria brincar para distrair, esquecer a confusão do mundo lá fora.

Os anos passavam, mas ela continuava indo no mesmo parque, sorrindo e buscando alguém pra dividir os minutos de volta à infância, mas a vida é mais dura com os adultos e gangorra é coisa de criança. Então ela ficava sentada no banco, treinando sorrisos para o dia em que alguém aparecesse. Nem sempre vinha alguém. Caminhava de lá pra cá pela grama já escassa, intercalando entre o banco de madeira e o meio da gangorra. Tentara brincar sozinha, mas não tinha a mesma graça.

Até que numa noite aleatória de pouca luz e muita Lua ouviu alguns passos, mas não conseguia ver quem era. Chamou, perguntou, mas ninguém respondeu. O vento ficou mais forte, anunciando uma chuva inesperada. Os pelos arrepiaram e ela, já cansada de esperar, decidiu que era hora de ir. Enquanto caminhava em direção ao carro ouviu um ruído conhecido, de ferro e óleo. Viu uma sombra do outro lado da gangorra e, mesmo sem ver quem era, não seria capaz de dar as costas. Voltou correndo. Sorriu. Ainda dava tempo.

A essa hora as luzes do parque já haviam se apagado, mas ela nem percebeu a diferença. Sentou na outra ponta e ficaram ali por horas. Ela gargalhava alto, de olhos fechados, e as folhas que voavam em seu rosto se misturavam com as gotas da chuva que, mesmo forte, não a impediu de continuar ali, sem se dar conta da hora ou lembrar de que teria que acordar cedo na manhã seguinte.

De repente um raio cortou o céu, clareando tudo e, por um segundo, ela viu que do outro lado uma moça também de olhos fechados e cabelos soltos ao vento sorria de volta. Sabia que a conhecia de algum lugar, mas logo escureceu novamente e ela não foi capaz de dizer quem era. O trovão a assustou, como quando menina, e ela se desequilibrou, caindo na terra molhada. Ao conseguir limpar o rosto e abrir novamente os olhos se viu sozinha. Quem quer que estivesse ali também deveria ter se assustado e corrido para um local seguro, onde quer que isso fosse.

Recuperou o fôlego, a força nas pernas e os batimentos cardíacos normalizaram aos poucos, então correu para o carro com um leve sentimento de culpa por sequer saber o nome da pessoa com quem dividiu seu momento favorito do dia.

Voltou para casa e depois do banho, ainda nostálgica - não gargalhava assim há tempos -, sentou no chão da sala e folheou alguns álbuns antigos. Viajou nas memórias, mergulhou em saudades que nem lembrava que tinha quando sentiu o corpo adormecer. Tudo ficou silencioso. Nem mesmo a caneca de chá soltando de sua mão e espatifando no chão foi capaz de lhe interromper o susto.

Ali, no meio das fotografias, ela reconheceu a moça do sorriso de lua e cabelos negros. Sorriu entre lágrimas e abraçou a menina que um dia foi, sussurrando:

"De novo amanhã?"




GISELLE FERREIRA
Escreve para não enlouquecer e jura que tem funcionado. Na dúvida, canta também. É feminista, bissexual, afrontosa e defensora do respeito mútuo. Carrega Pernambuco no sangue enquanto seu coração bate em São Paulo. Troca qualquer balada por um cantinho com amigos e um violão.

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