icones sociais

A gente fica mordido, não fica?

A água quente aquecia meu corpo frio. Arrepiava. O banheiro à meia luz, o som em meio tom e todo o ambiente tomado pelo vapor que subia. Me perdi na melodia. Olhos fechados; memórias antigas; gosto de sal e saliva. “A gente fica mordido, não fica?”. Inconscientemente, um sorriso brotou no canto dos meus lábios. Mordi.

A vontade de você esquentava quereres tão meus que eram quase nossos. Pele corada, vermelha, sedenta. Transpirei como nos melhores momentos. Suor aromático, poético. Meu olhar no espelho enxergava seu semblante safado. Os ombros sentiram o toque, as penas tremeram, faltou ar pra respirar.

Eu não sabia se o calor que subia vinha da água fervendo ou do meu corpo quente. O cheiro evaporava de mim, trazendo memórias gostosas e impróprias. “Me lembro do beijo em teu pescoço”. Outro arrepio me correu a espinha. Pisquei os olhos e toda a escuridão virou você. A saudade se misturou no desejo que pulsava no meio das minhas pernas. Meu cheiro tinha gosto de nós dois. O vapor acalorado tinha a forma dos lençóis amarrotados – daquelas noites pequenas perto da sede que tínhamos.

Vesti as toalhas, mas deixei que caíssem. Sequei-me, permaneci molhada. Ouvi a sua voz três vezes, e aceitei estar mais próxima do que deveria. Perto demais para impedir que queimássemos. Fogo-fátuo, de azul tesão. Incendiei o espaço, e com os dedos destruí o que ainda restava de mim. A culpa era mais tua que minha, me forcei a acreditar.

Enquanto eu me desfazia em mim, podia jurar sentir teu hálito quente roçando a base da minha orelha.

“Deixa eu bagunçar você?”.

Outra vez?




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

Comentários

Instagram