icones sociais

EU NÃO NASCI PARA AGRADAR A SOCIEDADE

escrito por Giselle Ferreira
Você certamente já ouviu falar de convenções sociais, que são aqueles costumes passados de geração para geração e dos quais as pessoas insistem em não desapegar. Aqui vão alguns exemplos aleatórios...

Homem tem que abrir a porta do carro e ser cavalheiro; Mulher que não se depila é porca; Sempre que for à casa de alguém, não abra a geladeira; Se for madrinha/padrinho, tem que dar presente caro; Não chame ninguém para lhe visitar se a casa tiver bagunça; Não repare em outras pessoas se estiver num relacionamento... Blá, blá, blá.

Convenções sociais nunca me agradaram.

Me dizem radical vez ou outra e, sinto muito, para alguns assuntos sou mesmo. Talvez porque nunca fui de me encaixar, embora durante um tempo tenha sido meu desejo mais profundo.

Acontece que eu fui a criança "gorda demais", nordestina, mais alta que a média, com pelos demais, sem voz de moça e odiando a cor rosa. Brincadeira de menina? Brincadeira de menino? Nem sei. Jogava bola, caía de patinete, pintava, desenhava, nadava, jogava pedra pra arrancar fruta de galho alto, esconde-esconde no meio da construção inacabada, luta livre, peão, bola de gude e sei lá mais o quê. Tenho amigos de uma vida que fiz coberta de barro, brincando só de calcinha na rua da infância. Aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas. Beijei meninas antes de beijar meninos.

Nunca fui de me encaixar. E tudo bem. A mulher que me tornei sabe muito bem que quem muito tenta se encaixar desaparece, igual joguinho tetris (li numa frase rodada na internet, confesso). Não sou quebra cabeça, não encaixo perfeitamente numa sociedade quadrada a fim de me ver emoldurada pelas paredes do tempo. Sou grão de areia, imperfeito, com consciência da minha pequenince e, no entanto, sei bem da minha importância nas orlas, ruas, mares, estradas, solas de sapato e nos olhos das crianças desavisadas.

Aprendi tem um tempo que imperfeição tem um papel importantíssimo quando nos juntamos a outras partes — amigos, colegas, família... —: o espaço. É fundamental o vazio entre uma ponta e outra justamente para termos liberdade de movimento, de expansão. Peça encaixada não se mexe, não sai do lugar, mas grão solto no vento dança com a maré e nem por isso a praia deixa de fazer sentido.

Então peço, encarecidamente, que perdoem até meu radicalismo. Luto para desconstruí-lo tanto quanto às ideias sociais do que devo ser, falar, vestir e calar. Você pode sorrir quando um homem lhe abrir a porta, gastar rios no limite do cartão de crédito para agradar os outros, ou tempo e bom-humor se depilando em salões para satisfazer o desejo pré-púbere imposto desde que nos entendemos por gente.

Você pode dar o presente mais caro para a noiva porque é a madrinha e melhor amiga, ou esfolar seus joelhos esfregando o rejunte porque a família da sogra da vizinha do seu primo de quinto grau resolveu passar o fim de semana na sua cidade. Isso te faz feliz? Vai fundo, mana. Só não me peça pra ir contigo.

Porque, novamente, convenções sociais não me agradam. Não fico onde não me sinto parte, não visito ninguém por pressão, não deixo de negar algo por ficar com medo do que irão dizer, pensar ou sei lá. Aprendi há um tempo que encaixe nem sempre é vantagem e que a única convenção social que me ganha é a de que o dia só começa depois do café. O resto? Amasse e jogue fora, junto com tudo aquilo que te força a ser, fazer, falar e calar o que você não quer.



GISELLE FERREIRA
Escreve para não enlouquecer e jura que tem funcionado. Na dúvida, canta também. É feminista, bissexual, afrontosa e defensora do respeito mútuo. Carrega Pernambuco no sangue enquanto seu coração bate em São Paulo. Troca qualquer balada por um cantinho com amigos e um violão.

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