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Não somos apenas as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar

escrito por Beatriz Zanzini

Não somos apenas as netas das bruxas que vocês não conseguiram queimar. Somos também as filhas daquelas que carregaram, não somente a nós em seus ventres, mas também a todo medo, censura e repressão que depositaram em suas costas.

Somos aquelas que, a duras penas, descobrimos que havia um mundo além daquele que nos ensinavam a chamar de lar, mas que, muitas vezes, parecia-se mais com uma minúscula gaiola.

Somos aquelas chamadas de “sexo frágil” para que não percebêssemos a força que temos para pilotar não só o fogão, mas o carro, a alma e a imaginação.

Somos aquelas que fechavam as cortinas, guardavam as lágrimas, rasgavam os escritos, apagavam as cicatrizes. Somos aquelas que serviram, por incontáveis anos, a todos que tentavam nos calar em meio a tantas exigências que nos impediam de seguir nossas essências.

Somos aquelas que apertaram os corpos em cintas, se esconderam em maquiagens, se apequenaram em salas e cozinhas. Somos aquelas que criaram raízes embaixo da terra sagrada, para nos sustentar, assim como as folhas das ervas que nos acolhiam e curavam.

Somos aquelas que tiveram a carne cortada, o coração esmagado, a mente dilacerada.

Somos aquelas que aprenderam a amar a família, mas não fomos ensinadas a amar a nós mesmas. Somos aquelas que eram heroínas silenciosas, protagonistas fantasiadas de coadjuvantes.

Somos aquelas cujas vozes foram abafadas, para que o som de nossos gritos entalados não quebrassem os muros construídos ao nosso redor.

Fomos e ainda somos muito.

Donas do lar, do trabalho, do mundo.Mães do filho gerado pelo próprio corpo, pelo coração ou, simplesmente, mães de si próprias.

Somos tanto que nos pegamos sendo até mesmo o que ainda não existe. Afinal, somos aquelas que podem ser exatamente o que quiserem (e nada mais irá nos impedir).




beatriz zanzini
Jornalista, redatora e escritora paulistana. Apaixonada por hambúrguer, cerveja e animais. Tem dois livros publicados, um de prosa poética, o "Despindo-me em palavras"; e um romance, "O (re)começo depois daquele fim". Beatriz também é coautora do livro "Quando vivi de verdade", um romance com publicação prevista para novembro, escrito por ela e pela escritora Re Vieira. 

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