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Amarelinha

escrito por Ana Paula Del Padre
De todas as brincadeiras de minha infância, a amarelinha era, sem sombra de dúvidas, a minha preferida. Riscar a rua de giz ou tijolo de construção e passar horas e horas brincando com a turma ou até mesmo sozinha. Diversão garantida.

Certa vez, li em algum lugar que essa tal brincadeira em que crianças pulam sobre linhas no chão, simboliza o percurso da trajetória do homem através da vida. Será mesmo?

Divagando sobre o tema agora, penso que se a amarelinha tem mesmo alguma conexão com o jogo da vida real. Deve ter sido inventada por alguém que não entendia nada sobre a arte de viver, ou alguém com uma utopia maior que o mundo, por representar a vida assim de forma tão “quadradinha”, linear e cheia de regras. Ou alguém que, milagrosamente, viveu sem percalços, uma vida em que tudo deu certo, sem sobressaltos.

Primeiro, os quadrados ou retângulos são numerados de 1 a 10 e tal ordem crescente deve ser seguida à risca. Ah! Quem disse que a vida é assim tão certinha e segue criteriosamente o fluxo “normal”?

Quem vive de verdade, e não de faz de conta, sabe que viver é tentar equilibrar-se, em vão na maioria das vezes, em meio ao caos e nem de longe o número 2 vem logo após o 1 ou tampouco o 6 antecede o 7.

Nesse jogo da vida real, não há ordenamento algum, tudo está desordenado, fora da lógica natural, tudo junto e misturado, e raramente sabemos para qual casa devemos seguir, como deve ser o próximo passo. 

 E, diga-se de passagem, talvez exatamente aí resida a beleza da vida: na incerteza e nas surpresas que podem nos esperar a cada esquina...

Na amarelinha da brincadeira, a gente sabe exatamente onde deve pisar com os dois pés bem firmes e onde devemos nos equilibrar num pé só...Ah, quem dera assim fosse também por aqui: na verdade, nunca sabemos de fato. Quantas vezes acreditamos estar seguros e nos entregamos com tudo, com os dois pés, alma e coração, e levamos uma rasteira bem dada? Por aqui, faz-se necessário equilibrar-se quase sempre entre razão e emoção, entre cabeça e coração, entre querer e poder, entre ter e ser...

No jogo do chão riscado, nunca devemos perder o equilíbrio. Já aqui, digamos que perder o equilíbrio vez ou outra nos ensina, nos educa, nos faz entender coisas fundamentais que o equilíbrio constante da zona de conforto jamais seria capaz de nos demonstrar com eficiência.

Na brincadeira, o trajeto vai do céu ao inferno e vice-versa, numa analogia que eu diria fazer muito sentido com a vida real. Finalmente vi semelhança. Vamos alternar entre êxtase e dissabor infinitas vezes ao longo da vida. Viver é andar na corda bamba, é estar numa montanha-russa radical, é ir do céu ao inferno num piscar de olhos e lutar para sair do inferno e retornar ao céu dando um passo lento de cada vez, caindo e levantando inúmeras vezes.

Na amarelinha, perde quem pisa na linha, quem coloca o pé na casa onde está a pedrinha ou a casca de banana, quem joga a pedrinha na casa de número errado ou quem esquece de pegar a casca de banana no caminho de volta.

Na vida, perde quem desiste de recomeçar todas as vezes que se fizerem necessárias, quem pensa que felicidade é algo que se encontra somente na linha de chegada ou que ela seja sinônimo de acontecimentos grandiosos.

Mas, principalmente, perde o jogo da vida quem deixa de ser criança, quem desiste de brincar e se divertir com as pequenas coisas, quem perde a inocência de acreditar em magia e quem desaprende de rir de si mesmo.



ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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