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Em um mundo com tanta exigência de bem-estar e alta performance, "Coringa"​ é um filme necessário

“Coringa”, o vilão mais famoso do universo da DC, ganhou vida — desta vez — com o ator Joaquin Phoenix.

Fico até desconfortável em dizer que “ganhou vida”, porque, na verdade, o personagem apenas sobrevive em uma trágica história que não tem absolutamente nada de comédia.

Arthur Fleck é um homem com distúrbios mentais e uma condição peculiar: uma risada patológica (chamada de afeto pseudobulbar ou labilidade emocional), geralmente causada por algum trauma físico. O cérebro é afetado de uma maneira que as emoções se confundem, o que leva o personagem a gargalhar, descontroladamente, até mesmo em situações de tensão, raiva ou tristeza.

Aliás, se você ri em algum momento do filme, seja por uma piada infeliz ou porque a risada do personagem, por mais desesperadora que seja, desperte isso, automaticamente você aponta o dedo para si próprio, questionando como isso é capaz de acontecer diante de um filme tão denso, pesado e perturbador.

Arthur trabalha como palhaço para uma agência de talentos, sem deixar de lado o seu grande sonho de se tornar um comediante.

"Minha mãe sempre me fala para sorrir e fazer uma cara alegre. Ela disse que eu tinha um propósito: trazer risos e alegria ao mundo".

Achei importante destacar esta fala do personagem, principalmente em um mundo que tentam nos enfiar, goela abaixo, positivismo, alta performance e bem-estar o tempo todo.

É impossível ser feliz sempre, qualquer pessoa com o mínimo de consciência é capaz de assumir isso, mas infelizmente a tristeza é algo que o mundo tenta sufocar, como uma forma – nada eficaz, diga-se de passagem – de ser feliz.

Não são poucos aqueles que desenvolvem transtornos mentais porque tentam, a todo custo, sufocar os próprios sentimentos, sem perceber que assim sufocam também a si mesmos.

“A pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não tivesse”.

Sim, Arthur. Infelizmente, estamos em um mundo que nos cobram sorrisos, alegria, saúde física e mental e aceitação o tempo todo, o que nos leva a ser cada vez mais o que exigem e cada vez menos a nossa essência.

Neste triste contexto, a intenção de Arthur, de fazer as pessoas rirem, acontece de forma maquiavélica: como bullying. Afinal, Arthur é, constantemente, agredido, tachado de esquisito e visto como um comediante fracassado, o que desperta gargalhadas que, ao contrário de sua condição patológica, são intencionais.

E é assim que, em uma Gotham City que enfrenta uma intensa crise, destacando aqui o enorme descaso com a saúde pública — que atinge diretamente o personagem principal — e sem Batman para salvá-la, o marcante vilão Coringa vai se construindo.

Me deparei com diversas críticas que ressaltam que o filme pode ser um gatilho, no sentido de justificar a violência cometida por alguém que já esteve no papel de vítima. Eu, particularmente, acredito que qualquer coisa pode ser gatilho para alguém que não está mentalmente saudável, infelizmente.

Mesmo assim, acho o filme bastante necessário por uma questão que tanto discutimos hoje: empatia.

A dor de Arthur nos causa dor também. Nos faz questionar sobre a maldade explícita ou sutil que envolve atos e palavras. Eu mesma saí do cinema pensando no cuidado redobrado que preciso ter quando me refiro ao outro, principalmente na mania de julgar situações ou pessoas que eu não sei o que passam ou já passaram.

Espero, de coração, que este filme tão pesado nos traga a consciência de que precisamos exercitar, diariamente, a empatia. Precisamos olhar para nós e para o outro com o devido cuidado. Precisamos nos atentar a tudo que nos machuca ou machuca o outro, não com o intuito de revidar, mas de procurar a cura.

"Sou eu ou o mundo está ficando mais louco?".

Infelizmente, Arthur, o mundo parece mesmo mergulhar, cada vez mais, na loucura. Mas, ainda assim, a melhor forma de reverter jamais será a violência e sim, justamente o contrário: a empatia.

Espero que as pessoas saiam do cinema não exaltando as reações maquiavélicas do personagem, que de agredido se torna o agressor, mas sim que sintam a necessidade de olhar para o mundo e para si mesmos com mais sensibilidade e compaixão.



beatriz zanzini
Jornalista, redatora e escritora paulistana. Apaixonada por hambúrguer, cerveja e animais. Tem dois livros publicados, um de prosa poética, o "Despindo-me em palavras"; e um romance, "O (re)começo depois daquele fim". Beatriz também é coautora do livro "Quando vivi de verdade", um romance com publicação prevista para novembro, escrito por ela e pela escritora Re Vieira. 

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