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O que é que houve, meu amor, você cortou os seus cabelos?

escrito por Sâmia Louise
Tentei afastar qualquer pensamento me concentrando naquele som ritmado, por mais que ele parecesse assustador. Na verdade, nunca soube ao certo se ele vinha dos meus passos ecoando pela calçada ou das batidas violentas do meu coração. Quando algo pareceu silenciar, notei que os meus pés deixaram de me obedecer – a calçada chegara ao fim. Lentamente, ergui a cabeça. E então foi o coração quem ameaçou parar. Você estava lá, conforme prometido. Do outro lado da rua, eu podia sentir os teus olhos ousados despindo os meus trajes negros. Os carros pararam para que eu pudesse atravessar. Tremi.

E temi.

Entre um passo e outro durante a travessia, meus pensamentos murmuravam uma prece. Nela, eu pedia para que você não sorrisse. Eu estava pronta para suportar tudo – exceto isso. Das poucas certezas que já tive na vida, uma delas é que você me faz ter fé toda vez que sorri. Outra, é que a fé em você me destrói. Pelos espaços suaves entre os teus dentes, eu sabia que poderia ver a qualquer momento o desenho daquele sonho tão bom que um dia tecemos juntos. E então teus lábios fariam casa, sussurrariam o trecho de uma canção bonita e me convidariam para ficar.

A rua acabou e fui engolida pela calçada novamente. Evitei o teu olhar, fixando-me na fachada daquele velho bar onde você me esperava. As cores continuavam as mesmas de quando entrei ali pela primeira vez, pra te ver sentado na mesa defronte à porta, trajado com uma camiseta do Calvin abraçado ao Haroldo. Você fazia um aceno desajeitado para o garçom trazer mais uma cerveja, e quando me viu, tentou emendar o gesto com uma arrumação disfarçada nos cabelos. Eu sou cética demais para acreditar em amor à primeira vista, você bem sabe. Mas nunca foi preciso confessar que eu te quis desde a primeira vez que te vi, ali, meio bêbado, meio descabelado, meio parte de uma história em quadrinhos. E continuei te querendo durante todos os outros dias, cada vez mais embriagada pelo o teu hálito. A cada dia mais presa em teu embaraço. A cada cena mais enquadrada em tua história.

– O que é que houve, meu amor, você cortou os seus cabelos?

Então o som da sua voz me fez sair daquele dia que virou noite no sofá do seu apartamento e corresse por todos os anos que se seguiram depois dali. Aterrissei cansada no mesmo lugar, e foi quando notei que na fachada desbotada faltavam alguns pedaços do letreiro. Assim como em minha cintura faltava o abraço dos meus sempre longos cabelos castanhos. Para algumas coisas, a morte vem com o tempo. Para outras, é preciso que nós mesmos sejamos o carrasco.

O tempo havia levado os recados de amor no espelho embaçado. O carinho mudo debaixo do cobertor. A ligação inesperada. Do teu amor sempre tão farto nos cafés-da-manhã, foi restando apenas migalhas. Das cartas onde eu desenhei o meu querer, espiei lacres intactos. De onde devia haver um sonho bom, acordei com pesadelos. Até que eu criei coragem para admitir que tudo aquilo que a indiferença não conseguiu engolir com o tempo, era preciso que eu mesma arrancasse. Firme, de tesoura na mão, me desfiz de todas as lembranças que ainda machucavam. Uma a uma, como um fio de cada vez.

Eu não sabia o que você havia feito com o seu tempo desde que a gente decidiu que tempo era o melhor pra nós. Não lembrava com exatidão há quantos dias você tinha arrumado suas malas, deixando propositalmente pra trás a camiseta do Calvin. Mas recordava de ter te falado uma última vez que aquela rua estreita não me bastava mais. Eu queria ganhar a avenida. Tomar a cidade. Invadir o país. Respirar o mundo. Mas você foi soltando a minha mão aos poucos, até perceber que havia mudado de direção. E na tua bagagem, foram também os carinhos congelados, o coração surdo e os planos dormentes.

Como eu te diria agora que as coisas que você levou deixaram falta, mas também alívio? Como te explicar que declarações tardias não enxugam lágrimas já derramadas? Acho que você nunca levou a sério quando eu dizia que pedidos de desculpa não apagam cicatrizes. E que há certos males para os quais não há cura. Sinceramente, não seria crueldade te falar tudo isso – cruel foi ser obrigada a vivê-lo. Mas, quando percebi que por algum motivo eu jamais conseguiria pronunciar as palavras, dei-me conta da grande bobagem que foi ter ido até ali.

– Vamos entrar?

Te encarei pela primeira vez. Meu coração não havia decidido qual sentimento prevalecia naquela mistura tonta de sensações. Revivi teus olhos, tua pele, teu cheiro, o movimento dos teus lábios. Você continuava o mesmo. A mesma voz, o mesmo coçar de nariz quando estava nervoso, as mesmas sobrancelhas arqueadas aguardando uma resposta. Era tudo tão seu. Era tão você. Mas por isso mesmo eu não poderia ficar – eu já não era mais a mesma. Corri os dedos por meus cabelos que agora terminavam nos ombros, e lembrei todas as ocasiões em que eu havia prometido a mim mesma que empunharia aquela tesoura quantas vezes fosse necessário – não por mágoa, veja bem, mas simplesmente porque era esse o meu mais sincero desejo.

– Desculpa. Não tenho tempo.

E saí apressada para ganhar a avenida.

(Texto inspirado na música "Tesoura do Desejo", de Alceu Valença.)


Sâmia louise
Sangue de baiana, profissão de jornalista e coração de escritora. Movida por fones de ouvido e canecas de café. Sensível, intensa e minha. Mais fantasista que Alice e mais feminista que Dado Dolabella. Na enquete sobre a maior invenção da humanidade, votei em cerveja e Doritos.

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