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Os excessos do mundo que causam o vazio em nós

"A questão da chamada depressão - diagnóstico que se tornou uma epidemia para nomear certos sintomas contemporâneos - é que ela não é um problema de falta, como tem se pensado. As depressões, ao contrário, são resultado dos excessos do nosso tempo. Excesso de trabalho, de pressão, de competitividade, de consumo, de informações, de exigência de performances, de reparos estéticos, de dietas, de variedades sexuais, de drogas (legais ou não), de diagnósticos e medicamentos, e opções de gozo."

Este trecho é de um texto da Rita Almeida sobre depressão, um dos melhores que já li (talvez seja o melhor) sobre o assunto.

Fui diagnosticada com depressão e transtorno de ansiedade há alguns anos. Já tive crises realmente pesadas, desde não sair da cama para absolutamente nada, até tentar o suicídio. Portanto, posso afirmar que este texto faz mesmo muito sentido.

O problema nunca foi a falta, parando para analisar agora. Afinal, o mais importante nunca me faltou, já que sempre tive muito apoio das pessoas que amo. O problema é, realmente, o excesso.

(Sobre)vivemos em um mundo que tenta nos encaixar, o tempo todo, em padrões que ignoram totalmente a nossa essência, a nossa individualidade. É como se tentassem, sem parar, nos vestir uma roupa apertada, desconfortável e que, definitivamente, não nos cabe. Pelo contrário: só nos sufoca, nos apequena, nos aprisiona.

"Pois eu digo que o que eu escuto dos "deprimidos" diariamente, só me faz pensar que eles não são o problema, mas parte da solução. Os deprimidos são um aviso de que estamos indo na direção errada, de que não pode haver vida saudável, ou mesmo possível, num mundo em que a prateleira de mercadorias se tornou mais importante que as pessoas e os afetos."

É claro que nós, "deprimidos", ainda enfrentamos muito preconceito, muita ignorância. Afinal, a desconstrução, nestes casos, leva muito mais tempo que a construção. E, infelizmente, nos deparamos de fato com todo o excesso relatado pela Rita. Ainda nos deparamos, com tantas cobranças de todos os lados, que rapidamente absorvemos todas e, também, nos tornamos os nossos próprios opressores. Nos cobramos, exigindo uma vida em que não nos encaixamos, repetindo o que faz o mundo lá fora.

Consumimos tudo que nos oferecem, tudo que parece estar cheio de qualquer coisa que alimente nossos corpos, nossa necessidade de encaixe, sem se dar conta de que, assim, nos tornamos vazios de amor, de aceitação, de empatia (conosco e com o outro).

"Dizem que a depressão é o "mal do século". A meu ver, o capitalismo neoliberal é o mal do século (ou dos últimos séculos) e as depressões são a resistência psíquica a esse modelo econômico."

É por isso que insisto - faça você parte do mundo dos "deprimidos" ou não - que você reflita sempre sobre o que é realmente teu, de tudo que você carrega aí dentro.

Esse desespero em formar uma família, daquelas do comercial de margarina, é realmente um sonho teu? Essa cobrança excessiva de achar um emprego, em uma empresa reconhecida em que você ganhe ao menos X valor, é realmente um plano teu? Essa preocupação excessiva com o teu corpo, teu cabelo, tua aparência, é realmente uma necessidade tua? Esse medo de não ser aprovado, no vestibular, na vaga de um trabalho, na rua ou até mesmo embaixo do seu próprio teto, é justo com você?

O mundo está cheio de excessos, é verdade. E, se nos deixarmos levar, sofreremos pela única falta que realmente nos adoece: a da liberdade de ser aquilo que realmente somos.




beatriz zanzini
Jornalista, redatora e escritora paulistana. Apaixonada por hambúrguer, cerveja e animais. Tem dois livros publicados, um de prosa poética, o "Despindo-me em palavras"; e um romance, "O (re)começo depois daquele fim". Beatriz também é coautora do livro "Quando vivi de verdade", um romance com publicação prevista para novembro, escrito por ela e pela escritora Re Vieira. 

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