icones sociais

Quando a ansiedade aparece para uma visita

escrito por Mafê Probst
Alguns dias amanhecem não fazendo sentido. O corpo levanta no toque do despertador, se arrasta e lava o rosto. Se encara no espelho e não se vê. Se olha de novo. Olhos opacos, caídos. A cabeça pesa. A rotina se instaura numa valsa ensaiada – mas sem emoção alguma. Escova os dentes, põe a lente e se encara de novo. Nada.

Tudo automático. Volta ao quarto e arruma a cama. Deixa os lençóis amarrotados debaixo do edredom bem esticado. Vê sua alma dormindo, enrolada em si mesma, em uma posição fetal pouco habitual. Sente inveja e segue. Valsa. Dois lá, dois cá. Prepara o café. O perfume invade e conforta. Se encara no espelho outra vez. Olhos menos sem vida, um pouco mais de cor nas bochechas... Pão. Mastiga. Engole. Comeu um pedaço ou comeu dois? Não sei, não vê.

A dança segue. Computador aberto, celular do lado. Livro que quer ler, curso que quer assistir. “Mais café”, pede. Levanta. O café esfria na xícara. As janelas se multiplicam. Uma, duas, dez, doze. Abre e fecha. Pausa. Gole de café frio. Desespera. As horas piscam e passam, quando vê é meia tarde e o estômago está vazio.

Os olhos queimam e ardem. A língua pressiona o céu da boca, a voz sai embargada de sal. Reprime o choro. Engole os sentimentos. Não se permite sentir, não se permite desabar, não se permite chorar. O coração palpita uma oitava acima, as pupilas se dilatam, o pulmão falha. Se encara. Os olhos carregam o brilho das lágrimas que não derrama.

Notificação. Barulho. Buzina.

O vento sacode as cortinas e ela fecha portas e janelas com pressa. O sol invade numa alegria amarela zombeteira. As janelas abertas se multiplicam, as horas avançam rapidamente e as pendências seguem firmes e fortes.

Passa quase um dia inteiro. Nada foi feito.

Volta ao quarto. Fecha as janelas e cortinas. Aconchego. Vê a alma ainda dormida em posição fetal e se junta à ela. Deixa chover no travesseiro. Adormece no meio de uma prece.

Levanta. As horas se arrastam e se demoram. O cheiro do incenso acalma, a música acolhe e invade  — a casa, os poros. A alma acompanha o corpo. Senta em frente ao computador. Fecha aba por aba. Outro café, outro pedaço de pão. Respira. Inspira. Abre a janela para a luz amarela e se deixa aquecer.

E começa.

Pé ante pé. Dois lá, dois cá.

Sem pressa.




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

Comentários

Instagram