NÃO ERA EU NAQUELA FOTO

Foi estranho olhar aquela foto e não me enxergar nela. Meu rosto e parte do corpo estavam ali estampados na fotografia, cuidadosamente encaixada no belo porta-retrato de madeira sobre sua cômoda, mas não era eu ali de fato. Pelo menos, não por inteiro, não em minha essência. Fiquei pensando em quão complexos somos. Em tudo o que nos torna quem somos de verdade. Do que somos feitos, afinal?

Ali, naquele retrato no qual não me reconheci, só estava uma parcela minúscula de mim. Um átomo invisível, uma partícula mínima de mim mesma. Quem me olhasse por ali, veria o que exatamente além do vestido branco que eu usava, do sorriso meio de lado e do meu olhar bem longe? O quanto de mim aquela imagem realmente representava?

Será que alguém que me olhasse só por ali, conseguiria ver as minhas vitórias e, principalmente, a escalada dura que foi chegar até elas? Quem enxergaria todos os tombos que levei, as rasteiras que a vida que deu — de quem eu menos esperei? E os esforços que eu fiz todas as vezes que tive que levantar? Quem veria que por trás do sorriso escancarado perante a multidão, lá dentro, bem no fundo, eu sangrava em dor? Quem olharia as minhas perdas precoces, as noites mal dormidas, o sentimento de culpa que me paira vez ou outra, as escolhas erradas que eu fiz, e as certas também? Quem conseguiria imaginar a indecisão que, de vez em quando, assombra a mulher forte que eu preciso ser? Quem enxergaria minhas amizades, meus amores, minha família, meus desafetos? Os arrependimentos do que fiz e do que deixei de fazer? Os sorrisos que fiz brotar pelas vidas que cruzei, as lágrimas que, inevitavelmente, na minha condição de ser-humano, fiz brotar, sem orgulho disso, naqueles que eu amava?

As árvores que plantei, o filho que eu trouxe ao mundo e o livro que estou escrevendo? Os segredos que eu guardo e os que já não não escondo mais? A infinidade de pessoas que cruzaram meu caminho, as que ficaram só um pouco e logo partiram, as que ficaram mais do que deveriam, as que eu desejaria que tivessem ficado mais, mas que se foram para longe e as que pensei que ficariam para sempre, mas a vida faz planos diferentes dos nossos às vezes. Mas, cada uma delas, deixou algo aqui em mim. E sou feita também do que cada uma deixou aqui, mas noto que a foto não estampa isso.

Tudo o que aprendi e aprendo a cada segundo e tudo o que ensinei. Meu lado bom e meu lado mais sombrio.

Tudo o que eu tive desde que nasci, e, principalmente, tudo o que não tive, tudo aquilo me faltou. Nossa! Como sou feita daquilo que mais me faltou, porque desta escassez, me fiz quem sou. E, ali, na foto, isso não aparece...

Por isso, da próxima vez que me olhar — seja pela fotografia, pela tela ou nos olhos —,  me enxergue além... além do que está estampado no visor, no papel ou nas pupilas, pois eu estarei há milhões de anos luz daquilo que seus olhos acham que estarão vendo!




ana paula del padre
Administradora. Capricorniana Mãe. Mulher. Intensa. Não necessariamente nesta ordem. Se encantou pela beleza das palavras desde cedo, mas, pelos atalhos no caminho, acabou seguindo outros rumos. Agora, aos 40, com o turbilhão de sentimentos que a maturidade traz, as palavras brotam sozinhas e espontaneamente. Adora desafios, filosofia, pôr-do-sol, abraços apertados, conversas longas e decifrar entrelinhas.

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