O primeiro olhar que não me atravessou; me absorveu


Eu já estive ali em cima, no alto, muitas vezes. Cheguei a chamar aquele lugar de casa, acredita? Quanta inocência... Um dia desci de lá e nunca mais arrisquei a escalada. Até aquela noite.

Flertei com o monte e desejei o topo de novo. Cortejei o frio na barriga e engoli o medo com a ajuda de uma tequila. Teve quem torcesse o nariz, mas não me importei. Queria subir de novo.

As pernas fraquejaram no trajeto, confesso. Tive medo, mas cheguei ao cume. Eu, que sempre fui tão pequena, me agigantei de novo, ou era só assim que eu me sentia.

Eu estava no centro da luz e de lá eu podia ver o mundo. Todo aquele mundo. 

Vi mãos levantarem brindes, pernas balançarem impacientes e dedos tocarem telas aflitas. Eu vi luzes piscarem e expectativas virarem cinza. Eu sabia que não tinha o ritmo dos outros alpinistas, mas estava lá, assim como eles. Deixei meus olhos caminharem e, no horizonte infinito, encontrei. Do lado esquerdo havia outros olhos. Esses não caminhavam. Estavam estáticos. Cravados. Endereçados... a mim.

Admito que, logo de cara, eles me intimidaram, mas encontrei um sorriso tranquilizador, emoldurado em cachos escuros. Os cotovelos, apoiados nos joelhos, jogavam cabeça, ombro, tronco, peito... tudo na minha direção. Mãos unidas pareciam fazer uma prece, rogando por meus versos. Com minhas palavras, me joguei de lá. Pra quem quisesse ver, mas de alguma maneira, o atingi. Cada letra, cada pedacinho meu, arremessada lá do alto, caia e se aninhava nele. Ainda que ele não fosse a origem, se tornou o destino.

Que bom que ele estava lá, eu precisava ter alguém pra me acolher.



monika jordão

Atriz, escritora e paulistana. Acredita que o papel reflete mais do que o espelho. Apaixonada por livros, tequila, café e Coca-Cola. Buscando sempre o equilíbrio emocional e os amores inesquecíveis

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