RETRATOS DO COTIDIANO

Desde que me mudei de casa, comecei a circular mais a pé. No começo não foi escolha, mas a vida quis assim e logo fui me acostumando – e percebendo o quanto era acomodada.

Perambulando pelas ruas, vi meus olhos se desviarem do celular e começarem a esquadrinhar as esquinas, as casas, o tom e jeito dos gramados. Perceber as formas, texturas e cores dos números. As placas desbotadas pelo tempo, outras azuis e tão novas. Percebo o cheiro da cidade que muda. Diesel perto do porto; comida; grama. Tem rua que venta, outras não tanto. Tem rua sem sombra, outras com sombra demais.

E foi nessa ruazinha sombreada que vi um gari sentado, no meio da manhã, ao lado da casinha de lixo de um prédio. Ele tinha estendido uma toalha e sentado sobre ela. Ao seu lado, uma garrafinha de café e duas maçãs. No colo, a Bíblia, que ele folheava e lia alegremente. Passei por ele lentamente, observando a sua pausa. Ele sorria um desses sorrisos que dá vontade de colecionar, sabe?

Quando passei em frente a ele, levantou os olhos da Bíblia. Dei-lhe um bom dia, com aceno leve de cabeça e um sorriso tímido. Ele retribuiu o riso.

— Bom dia, moça! Que seu dia seja lindo e o Senhor lhe abençoe.

Deu um gole no café, voltou para a Bíblia que lia. Segurou o sorriso nos lábios – ou o pouco que restou dele. Parte do sorriso que deu, peguei para mim. Espero que parte do riso que dei, tenha ficado por ali também...




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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