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TALVEZ, MOÇO

Sabe moço, talvez eu devesse sair para tomar um ar hoje a noite, o céu está tão bonito e a lua crescente não ofusca as estrelas. Talvez eu devesse tomar uma dose de whisky e sair perambulando pelas ruas como nunca fiz, como nunca nem tive vontade fazer. Talvez eu simplesmente devesse me tornar menos eu para me descobrir um pouco. Levantei da cama hoje e era domingo, o despertador não tocou, não sai para fazer uma caminhada matinal e nem tomei um café amargo logo cedo. Arrumei o quarto, tirei o pó, limpei os resquícios de sujeira que ainda restavam aqui dentro.

Limpei tudo tão bem que acabei me apagando de mim, esqueci quem eu era e quais motivos me mantinham lutando todo dia por algum espaço. Talvez eu devesse ler um livro erótico porque nunca fui fã e nem tentei algo assim. Talvez eu devesse aceitar a escrita do Paulo Coelho tal como ela é sem pré conceitos. Talvez eu até passasse a odiar Clarice Lispector por saber decifrar todo e qualquer sentimento meu. Talvez eu andasse pelo parque do bairro descalça e de pijamas sem me importar com os olhares alheios. Talvez eu até cumprimentasse aquele mal humorado do porteiro sem me importar com a cara feia.

Talvez, mas só talvez eu dançasse em baixo de uma tempestade, borrasse o rímel e estragasse o celular que não é à prova d'água. Ou talvez nem rímel eu passasse. Talvez eu deixasse de guardar dinheiro e desperdiçasse meu potinho de moedas de um real em balas no mercadinho da esquina. Talvez eu devesse dormir menos, procrastinar menos e comer tudo o que eu sentir vontade. Talvez essa não seja eu. Quem sabe esquecer de mim me transforme em outro alguém, mas talvez eu goste de não usar minha pele por um dia.

Talvez eu devesse pular carnaval fora de época e fazer aquelas dancinhas ridículas coreografadas pelos artistas sertanejos num festival aleatório. Talvez eu devesse sorrir mais, sem medo de mostrar os dentes, sem medo de me sentir feliz. Talvez, ou quem sabe um dia, eu devesse pegar o carro e sair sem rumo por aí, sem GPS, sem local fixo. Talvez eu levasse uma barraca, um lampião à querosene e um livro na mala. Talvez, mas só talvez eu ainda tenha coragem para fazer tudo isso.

Tomei um laxante para limpar o organismo e limpei quem eu era por dentro. Deixei ir meu eu solitário, meu eu embaraço, meu eu meio tartaruga lerda dentro do casco. Talvez tenha deixado meu passado escorrer pelos dedos das mãos também, ainda não sei certo.

Talvez eu devesse é parar de pensar tanto no futuro e aprender a me aventurar no presente. 

Talvez eu devesse é deixar minha cabeça aprisionada e meu coração um pouco mais livre. Talvez moço, mas só talvez, um dia eu realmente me dispa de mim.



gabrielle roveda
1997. Escritora de gaveta, bailarina por paixão e sonhadora sem os pés no chão. Do tipo que vive mais de mil histórias pelas páginas dos livros, daquelas que quer viajar o mundo só com uma mochila nas costas, do tipo que acredita no amor a todo custo e dispensa de imediato pessoas sem riso fácil. Não sabe fazer nada direito, mas insiste em acreditar que o impossível é só uma daquelas palavras que vão cair em desuso e se vê tentada a tentar de tudo. Viciada em café e em escrever cafonices sobre si e o amor sem dizer nada ao certo. 

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