Tatuei você na minha retina


Tatuei teu rosto na retina esverdeada do meu olho castanho. Sempre me vi curiosa da dança tua e, meio que sem querer (querendo), fui absorvendo o máximo de você que podia, entre goles de café e silêncios infinitos. Antes mesmo de esbarrar no teu abraço apertado, eu já sabia que queria decorar você, mas não imaginava que você seria das minhas novas manias.

Virou vício.

Eu pareço uma criança curiosa, sedenta por todos os detalhes possíveis. Decorei o tom da tua respiração: quando dorme sereno; quando pausa uma leitura; quando dorme na euforia; quando tem o corpo cansado; quando briga com monstrinhos bobos; quando recupera o fôlego — depois de uma gargalhada, depois de chegar no céu... Gosto de catalogar teu inspirar-e-expirar e, vezenquando, me pego bordando um riso no canto dos lábios ao descobrir uma respiração que ainda não conhecia.

Decorei a covinha do teu sorriso... De quando amanhece tão menino e amassado e arrepiado; ou reclama com graça de um filme ruim; ou se veste de uma intensidade urgente, quase instintiva... Tem a covinha de sorriso que deixa teus olhos miúdos quase sorrindo também — dos teus risos, meu favorito: sempre vem quando teus olhos fazem cosquinhas nos meus.

Decorei teus dedos compridos. Ora alçando duas canecas de café; ora rascunhando uma ideia nova; ora tagarelando pelas teclas — sejam celular ou notebook. Decorei teus dedos afoitos: ora dedilhando umas cordas; ora dedilhando meus cordões. Decorei tua mão inteira, que me puxa para mais perto — e aperta. Que cutuca minhas pernas quando ao volante; que segura-numa-bronca meus dedos frouxos; que acarinha. E me desenha. E me desmonta.


Decorei teu corpo esguio. Quando tenta parecer miúdo por estar triste; quando sustenta a coluna ereta e leonina; quando diz que não sabe dançar, mas dança — no meio da festa, no meio do shopping, no que sobra de espaço no carro. Decorei teu corpo quando encaixa no meu, com teus braços enlaçados, teu queixo sobre meu pescoço, teu nariz mergulhado no meu cabelo de sol...

Decorei o teu perfil. Os dois lados. Um tão sério, outro tão menino. Um tão compenetrado, outro cheio de graça. Um tão pensativo, pés no chão e inseguro; outro tão sonhador, risonho e leve... Ambos são bonitos. Ambos.

Decorei alguns dos teus hábitos: a dança coreografada que você tem no banho; o teu espreguiçar; a pressa que tem para abocanhar e engolir qualquer comida; o jeito de segurar-e-acender o cigarro... Decorei também teu silêncio — o silêncio que pede abraço, o silêncio que pede espaço.

Eu sempre me vi curiosa de saber mais de você e, meio que por querer, fui absorvendo o máximo de você que podia, entre cafés infinitos e goles de silêncio. Quando me encaixei no teu abraço apertado, vi você tatuado no fundo castanho da minha retina esverdeada.

Virou vício te decorar & te aprender.




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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