PULSA DESEJO EM CADA PEDACINHO DE MIM


A página está em branco mais tempo do que eu gostaria. Ela me encara como um fantasma antigo, daqueles que desaprendi a lidar. Ensaio umas palavras tortas e umas linhas desconexas. Despejo tudo entre um gole e outro de vinho. E daí que é meio da tarde de uma sexta-feira? Hoje decidi não seguir padrões idiotas preestabelecidos. A merda toda é que, diante dessa página em branco, me vejo mais nua do que já estive. Reconheço-me no espelho. Sei o nome que dar para o brilho que tinge minha íris castanha-esverdeada. Sei que nome dar para o riso que carrega malícia. Pulsa desejo em cada pedacinho de mim. E é tudo culpa tua.

(...)

Sou inundada pela lembrança tua.

(...)

Imagino tua barba roçando de leve minha nuca. Por que você está tão longe? Me dá um trago desse teu cigarro? Quero ver se tem o gosto da tua língua na ponta dessa bituca. Não, não me importo de ter ficado só com o resto. Hoje eu queria catar o todo do teu resto, guardar debaixo dos lençóis e te devolver sei lá quanto tempo depois. Você não faz ideia do que já imaginei para nós dois. Ou talvez faça. Por que não vem e mistura tua fantasia com a minha? Desenha um rascunho de uma história qualquer comigo. Rabisca tuas linhas no meio das minhas entrelinhas.

Mas, por favor, respira na base do meu pescoço...

(...)




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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