RETRATOS DO COTIDIANO


Desde que me mudei, passei a reparar detalhes e amar coisinhas. Não é raro me ver parada em algum canto da casa esquadrinhando com carinho o ambiente que me abraça. Agora caibo na frase do abraço-que-parece-casa, só que ao contrário: tem-casa-que-parece-abraço. Tem casa que abraça. Que acolhe.

A parte mais bonita lá de casa e que mais me emociona é a janelinha do banheiro. Pois é. Um pequeno retângulo, mas que me tira o fôlego em todo banho. Sempre me pego parada, apoiando o queixo no beiral da janela, sentindo a água quente massagear minhas costas e observando o mundo lá fora, que muda o tempo todo.

Se meu banho é logo cedinho, eu vejo o sol começar a tingir o céu. Uma linha fina e laranja por todo horizonte, dividindo a terra e a noite ao meio. Cinco minutos e o sol já brilha no cantinho do porto e um feixe de luz reflete o azulejo e colore a minha face. É o nascer de sol mais bonito que vi – porque é meu. Aquele sol ninguém vê nascer igual, sabe?

Durante o dia – se semana – eu observo a correria. Carros, motos, bicicletas brigando por espaço junto com os caminhões-containers. Tem buzinas, tem barulho do cimento riscando o asfalto, tem conversas que sobem. Vira e mexe escuto o navio apitar ou seu motor funcionar. Gosto.


Se chove, a estrada se colore com a luz do poste. São milhares de reflexos alaranjados refletidos nas poças negras que ficam no asfalto. Tudo vira feixe de luz, tudo brilha. Faróis, semáforos. De dia é caos, de noite calmaria – uma calmaria alaranjada.

Noite. A hora favorita de observar a paisagem da minha janela.

Vira e mexe, se acerto a hora, sou agraciada com a companhia da lua. Já vi a lua sorrindo e já vi a lua bem cheia, nascendo atrás de um navio que ainda estava atracado no porto.

Sempre que é noite, e eu deixo o queixo apoiado no beiral da janela, sopra um ventinho gostoso no meu rosto molhado. Vezenquando eu fecho os olhos e absorvo a brisa... E, com olhos bem abertos, observo as estrelas, fico contando os pontos. A guerra que dá entre as estrelas e as luzes – tantas! – de uma cidade portuária.

Às vezes acontece do céu estar nublado, mas isso não impede de olhar pela janela. Fico namorando as luzinhas dos prédios distantes e até imagino uma estrela cadente sempre que tenho a sorte de presenciar o exato momento que uma luz se apaga – ou se acende. Vejo a imensidão do mundo e o tanto de gente... A verdade é que todas aquelas luzes, tão longe, parecem milhares de estrelinhas pequenas. Mesmo com o céu nublado, a janelinha do banheiro, está sempre cheia estrelas...

Sempre me pego parada, apoiando o queixo no beiral da janela. Deixo a brisa gelar meu rosto molhado, respiro fundo, deixo a alma lavar. A parte mais bonita lá de casa e que mais me emociona é a janelinha do banheiro.

Pois é.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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