TUDO VIBRAVA MEDO


A inquietação era tamanha que, num impulso, ela jogou o que podia dentro de uma mala qualquer e saiu sem rumo. Mentira – ela sabia muito bem para onde ia. Arrastou as rodinhas no asfalto, atravessou uma avenida pouco movimentada e parou do guichê 04 da rodoviária. Passagem de ida, documento nas mãos. Partiu sem alarde. Chovia.

Chegou numa selva de pedras com o coração acelerado e os olhos assustados. Tudo gritava e zunia e corria. A mala riscava o linóleo, e ela apertava os dedos firmes. Encarava em volta animada e apavorada. Carregava uma euforia estranha e um medo ainda mais bizarro. Tinha nas mãos um papel rasgado, nomes estranhos. Decorava como um mantra.

Caminhando em passos curtos, chegou ao metrô. Contou moedas, pagou bilhete. Desceu escadas rolantes e esquadrinhou aquela imensidão desconhecida. Buscou placas, seguiu setas e sentiu o coração apertar. Entrou num vagão muito cheio de gente vazia – será que ninguém via que ela se sentia perdida?

Desceu na estação; seguiu placas; buscou setas e passos vazios de pessoas com pressa. Mais uma porta que abre, outra porta que fecha. Repetiu os nomes do papel da mão, prestou atenção. Desceu de novo. E olhou placas. Seguiu setas. Subiu escada rolante...

Não se achou.

Com a mala numa mão e o coração na outra, sentou na calçada e chorou. Passos apressados não viram, ninguém parou. O celular anunciava perguntas e preocupações, ela tremia e dizia o que não sabia. Fez fotos. Amontou-se dentro de si e deixou chover mais um pouco. Olhos arregalados. Pupila dilatada. Mãos firmes. Tudo nela vibrava medo. Tudo nela apavorava.

Passos apressados iam e viam. Ninguém lhe via. Até que alguém parou.

O braço buscou as mãos que tremiam. Os olhos encararam olhos que choviam. A menina levantou do chão, olhando em volta, assustada. O braço puxou a menina para perto e aninhou quentinha, apertando tudo e tanto que podia – e não soltou...




Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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