UM CONTO DE SONHO


Sábado e o sol ainda não havia levantado. Saí do abraço dado pelo edredom, os pés encontraram o piso frio e os olhos piscavam com preguiça. O quarto era fracamente iluminado pela luz do abajur que ficou acesa a noite inteira – eu não queria o risco de perder a hora. O celular ainda descansava na mesa de cabeceira piscando o despertador e a bateria cheia. Quatro e meia.

Eu não tinha pressa, embora tivesse ansiedade. Havia deixado tudo milimetricamente ajeitado no dia anterior: a mala já deitada no carro; a playlist já baixada; a cafeteira com água. Comprei um bolo simples, formigueiro, caso acordasse com fome. Não tinha fome. O estômago estava tão cheio de saudade que abriu espaço só para o afago do café quente.

Não olhei para trás ao sair.

O tempo tinha pressa e o relógio rodava os ponteiros afobado. Carregava nas mãos um copo de viagem, cheio de café; uma pesada jaqueta de frio e uma bolsa a tiracolo. Cinco horas. Cinto afivelado. Bluetooth conectado. A música invadiu meu pequeno espaço assim que o carro cruzou a porta da garagem. Já não tinha mais volta.

Entrei na rodovia com um sorriso no rosto. Cantava alto enquanto dava generosos goles de café. Tudo me abraçava – o frio que soprava pelas frestinhas; a música que carregava memórias; a localização grifada no maps; a estrada vazia & minha...

O sol logo irradiou nas beiradas deixando a viagem laranja, embora ainda fria. A luz fazia coro com meu riso solto, os pés acariciavam o acelerador e a mente pedia um trajeto tranquilo – e rápido.

Duas paradas.

Dez horas e a saudade, que inundava estômago, cedeu vez para o frio. As mãos tencionavam o volante; os olhos, arregalados, tinham medo de se perder naquela imensidão silenciosa de concreto. A música foi desligada para aumentar a concentração. Mãos, olhos e ombros relaxaram quando o caminho tornou-se familiar. Já sabia onde ir, que esquinas dobrar, quantos minutos levaria para chegar...

Meio da tarde e a vaga aguardava por mim. Buzinei duas vezes.

Desci com as mãos trêmulas carregando um abraço pronto para dar. As horas de viagem foram poucas perto da eternidade daqueles segundos com portão fechado. Um rosto de preguiça e vinco na testa abriu a porta; relaxando com lágrima nos olhos quando me viu, fazendo coro com o sorriso-choroso que eu dava. Outra eternidade num cadeado e o abraço, finalmente, foi dado.

O frio sumiu do estômago, o corpo já não doía da estrada, o sal escorria manso pelo rosto e todos os músculos se contorciam para apertar ainda mais, para grudar ainda mais, para transformar nó. A vida desapareceu em volta – e tudo era nós.

E só. E que bom que só.



Mafê Probst
Engenheira, blogueira e escritora, não necessariamente nesta ordem. Gosta das hipérboles. Geminiana complexa, curiosa e indecisa. Come sushi toda quarta-feira. Coleciona sorrisos, dentes-de-leão, abraços apertados, despedidas de aeroportos e alguns clichês.  Tem um livro à venda. É membro da Academia de Letras de Itajaí, ocupando a cadeira número 7 – Paulo Leminski.

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